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António Sousa Homem

Moledo: a beleza profunda e frágil da paisagem

Os Homem, a música e a poesia

António Sousa Homem 5 de Outubro de 2014 às 00:30

Fui educado pelo velho Doutor Homem, meu pai, a acreditar que as únicas formas de exprimir paixões tão fortes como o amor ou o assassínio eram ou certo tipo de música, ou o silêncio – ou o pentâmetro jâmbico. Se é decente reafirmar que nunca pratiquei o homicídio, o amor, por outro lado, ocupou-me algumas vezes. Outras paixões vieram ter comigo ao longo da vida, ainda que eu as não procurasse; chegado a esta idade, já depois de feitos os balanços definitivos, devo reconhecer que nenhuma delas é uma mágoa e que poucas sobreviveram ao crivo da idade.

Sobre a música, a longa mas discreta biografia do velho Doutor Homem, meu pai, é pródiga em amostras do que seriam aproximações ao sublime (certas árias de ópera, algumas melodias do século XIX, ocasionais harmonias barrocas) – mas o sublime pode exprimir apenas o que é sublime, e ter pouco a ver com o amor ou a morte. Por vezes, perdido a ouvir alguns dos seus poucos discos de jazz (fui eu, durante a minha juventude, que introduzi o género na família, e pode dizer-se que se tratou da minha derradeira actividade revolucionária), ele procurava o sublime, tal como numas peças soltas de Schubert que depois não conseguia trautear – mas era a voz de Anna Moffo, a sua soprano de eleição, que o transportava para zonas de conhecimento que nos estavam vedadas e eram só suas.

No capítulo da poesia, e desde que o verso quebrado passou a ser o cânone da poesia escolar (ensinada às crianças, praticada pelos vates e publicitada como poesia, propriamente dita), pode ser considerada uma perda de tempo querer encontrar uma rima perfeita, um verso de sílabas precisas. A falar verdade, as andanças da nossa Língua são uma peregrinação por lugares pouco nobres da nossa decadência e vulgaridade – por que razão teriam, então, os nossos poetas de procurar um ritmo que já não existe, um som que já se perdeu, uma gramática que deixámos de transmitir de geração em geração? Por outro lado, desde que se passou a chorar depois de ouvir ou de ler os versos de Florbela Espanca, não havia outro remédio senão regressar a Sá de Miranda, ou, no caso do velho Doutor Homem, meu pai, a Shakespeare e aos seus românticos ingleses.

Seja como for, resta-nos o silêncio. Muitas vezes, durante as nossas caminhadas crepusculares até às dunas da praia, emblema místico de Moledo, dou com a minha sobrinha Maria Luísa a contemplar a crista das ondas ou o litoral galego, mais ao fundo. Nenhum de nós é capaz de explicar a beleza profunda e frágil de uma paisagem a que apenas falta a música.

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