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António Sousa Homem

O cinismo que há na ordem das coisas

A história tinha uma enorme paixão pelo acaso, pensava o velho doutor homem.

António Sousa Homem 24 de Novembro de 2017 às 00:30
O velho doutor homem, meu pai, apreciava muito a capacidade e a tendência portuguesas para a indignação. De cada vez que uma onda de repulsa, entusiasmo, paixão, protesto ou puríssimo enlevo tomava conta da Pátria, o causídico poisava o jornal, recostava-se na sua cadeira do escritório e olhava para a folha do calendário, anotando mentalmente a data e a hora do início do fenómeno. Ou seja, aguardava que o tempo – o juiz de todas as coisas – iniciasse o seu trabalho de erosão.

Ele achava que a História tinha uma enorme paixão pelo acaso, a quem atribuía a origem e a causa de quase tudo o que acontecia com o país, desde a convenção de Zamora, em 1143, à implantação da República, em 1910, passando pela tomada de Ceuta ou pela descoberta do arquipélago de Tristão da Cunha. Quase tudo o resto (à excepção das obsessões e embirrações da Tia Benedita, a matriarca miguelista da família) obedecia a impulsos de momento – razão porque os portugueses raramente completavam colecções de filatelia ou se dispunham a escrever sagas como o ‘Guerra e Paz’, que implicavam tempo, dedicação, predisposição para o isolamento, teimosia e, acessoriamente, gosto pelas coisas que se fazem.

Nesses momentos de indignação e entusiasmo, a Pátria tanto pede fuzilamentos como beatificações pelo papa, razão por que – daqui a alguns anos – o Panteão estará cheio de personalidades que se distinguiram no Facebook, que durante muito tempo acreditei ser uma máquina de escrever ligada ao telemóvel, à qual os meus sobrinhos-netos emprestam muito do tempo que poderiam dedicar a respirar o ar de Outono no areal desta praia de Moledo. Depois desses dois dias de indignação e entusiasmo, a realidade regressa à sua temperança homeopática, alguém se indigna com outra frivolidade ou a Pátria se ergue para outra glória passageira – e tudo continua, como bem sabia o dr. Salazar, no seu cinismo de seminarista, a "viver habitualmente".

A minha sobrinha Maria Luísa, a eleitora esquerdista da família, protesta contra o meu "cinismo de misantropo". Nessas ocasiões defendo-me, enumerando coisas que me comovem e me entusiasmam: os pinhais de Moledo, a colecção completa do ‘Minho Pitoresco’, as nuvens que se escondem por detrás do monte de Santa Tecla, os almoços de domingo para a prática da risonha maledicência familiar – e até o espectáculo dos que não sabem que a vida é apenas um episódio. E que é esta a ordem das coisas.
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