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António Sousa Homem

O que me faltou para ser o que agora sou

Faltou-me sempre aquele ar romântico e displicente, um tom de vida desarrumada.

António Sousa Homem 22 de Setembro de 2017 às 00:30
Aos dezassete anos comecei a envelhecer e o velho Doutor Homem, meu pai, atribuiu o fenómeno ao facto de eu ter lido um romance de Gabriel D’Annunzio, que o Tio Alberto prezava especialmente. Hoje ninguém lê os romances de D’Annunzio, o que não constitui grande perda – ao contrário da sua poesia. De qualquer modo, nessa altura o Tio Alberto, o velho bibliófilo e gastrónomo de São Pedro de Arcos, atravessaria o Bósforo na perseguição do amor da sua vida, até às margens do Cáspio, deixando-nos privados – daí em diante – da sua alegria no final dos verões minhotos, melancólicos e traiçoeiros. Eu fiquei; fui ficando.

As minhas irmãs acham-me uma figura parecida com a solidão do Santuário de São Bento da Porta Aberta – elas entendem que me faltou uma esposa, como Adão precisou de Eva para conhecer o pecado e a solicitude das coisas do mundo. Uma mulher tornearia a minha preguiça, morigeraria a minha tendência para o temperamento soturno e evitaria que se acumulassem tantos livros na biblioteca; teria tido filhos, netos, preocupações, ferramentas na garagem, ‘bricolage’ e, suponho, não teria tempo para me dedicar a escrever estas crónicas, prova da vaidade de um velho no Outono da vida.

Confesso que me faltou sempre aquele ar romântico e displicente onde cabem um livro no chão, um pouco de roupa amontoada, um tom de vida vivida e ligeiramente desarrumada. Nunca tive esse talento nem a centelha de génio e de criatividade que viessem pôr em desacordo a forma como conjuguei os lugares da minha vida e a recordação deles. Tendo deixado de fumar aos cinquenta e cinco anos (ao contrário do meu pai, que entrou na derradeira década da sua vida temendo pelo desaparecimento abrupto dos cigarros ‘Paris’), até esse elemento de distúrbio deixou de cumprir a sua função no organismo, tal como certo catarro romântico e de ‘ancien régime’.

A minha sobrinha Maria Luísa, que viajou pelo mundo fora e coleccionou aventuras que Dona Ester, minha mãe, vigiaria pelo canto do olho, transformou-se na "rebelde oficial" e na eleitora esquerdista da família. A princípio não via o que a levava a escolher este eremitério de Moledo – e os seus pinhais, o seu areal antigamente polvilhado de sargaço, os seus ventos cortantes. Com o tempo percebi que é em Moledo que se sente protegida do desvario do resto do mundo e tem sonos pesados, longos, tranquilizantes, conservadores. O mundo tem um sentido.
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