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António Sousa Homem

O ‘Verão Indiano’ e a queda de São Martinho

A ideia de ‘Verão Indiano’, ‘Indian Summer’, ‘L’Été Indien’, deixava o meu pai comovido, se bem que – como bons portugueses que prezam a sua língua – quase todos nós nos referíssemos a essa segunda estação do Outono como ‘o Verão de São Martinho’

António Sousa Homem 9 de Outubro de 2016 às 00:30

O santo, mesmo tendo nascido para lá do Cávado e de Biarritz, não podia passar sem esta homenagem dos Homem.

A minha sobrinha Maria Luísa detectou a ironia mal disfarçada em redor da vida daquele que viria a ser conhecido como São Martinho de Tours. Hoje em dia não se estudam as vidas de Santos – portanto, ao mencionar qualquer um, de São Pedro a Santa Maria Egipcíaca, é necessário esclarecer quase tudo sobre eles e confiar em que pelo menos a santidade lhes seja reconhecida.

E sobre São Martinho de Tours, que dá nome a São Martinho, há alguma lenda, algum milagre que explique a atribuição do seu nome ao segundo Verão do ano? Na verdade, não há; apenas a subida de temperaturas e um sol ofuscante depois da sua morte, a 11 de Novembro de 397.

Justifica isto (esta síntese da vida de São Martinho é com certeza pérfida e malévola) que se lhe atribua tanta notoriedade? No entender dos dois teólogos da família, nem pensar: o Tio Alberto, que não via em Tours motivo suficiente para se deslocar até lá, achava altamente sobrevalorizado o legado do santo, que tanto tratava por ‘o húngaro’ como ‘o francês’; a Tia Benedita, a matriarca ultramontana do nosso velho casarão em Ponte de Lima, não achava de bom princípio associar o nome de um santo a uma festa pagã que se distinguia por autorizar o consumo do primeiro vinho do ano.

Já velho Doutor Homem, meu pai, terminava a arenga declarando que, a haver um São Martinho, ele teria de ser o São Martinho de Dume, nascido no Oriente e sepultado na sua basílica, a de Dume, a dois passos de Braga. Para o velho causídico, São Martinho de Dume foi um filósofo, um autor e um eremita – enquanto o de Tours era apenas um mestre de obras interessado em alvenarias e catedrais vistosas.

Mas não era só isso. Era o segundo Verão, o ‘verão indiano’ o que estava em causa – uma segunda oportunidade para nos despedirmos da beleza do Estio antes de nos consagrarmos às geadas de Novembro. Porém, na sua cruzada contra o sentimentalismo, nunca poderia admiti-lo. Preferia declarar o seu amor às pedras de Dume.l
António Sousa Homem em certos aspectos
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