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António Sousa Homem

O mistério do meu casamento perdido

De tempos a tempos, durante sobremesa de domingo – se não há convulsões na pátria –, o tema regressa como uma espécie de condimento para a digestão.

António Sousa Homem 20 de Março de 2016 às 01:45

O combustível é fornecido por qualquer uma das minhas duas irmãs (somos cinco ao todo), que me acham uma figura parecida com a solidão do Santuário de São Bento da Porta Aberta, isolado no topo de uma serra contemplando o Alto Minho. Na verdade, elas entendem que me faltou uma mulher para tomar conhecimento das agruras da existência, tal como supõem que Adão precisou de Eva para conhecer o pecado.

Antes do crepúsculo, quando as visitas de domingo tomam a estrada de Viana e do Porto, ou de Braga, as minhas irmãs dedicam-me alguma atenção: querem saber da pressão arterial, do estado do aparelho circulatório e do sistema linfático, da hipótese do reumatismo e até das minhas esperanças na floração dos hibiscos.

No seu entender, um celibatário com a minha idade é uma contradição evidente com o género humano, que foi feito para crescer em harmonia com a natureza, casar, procriar e envelhecer com decência; supõem, portanto, que – mal cruzem a estrada nacional na direção da auto-estrada no alto da serra, de onde se verão os derradeiros raios de luz a poisar no areal de Moledo – na sua ausência (vinte e sete dias por mês) eu me limito a hibernar placidamente mas em total e completo sofrimento.

Dona Elaine (a governanta deste eremitério de Moledo), compreende tanto a preocupação das senhoras como o meu incómodo pelas suas suposições, e acha que devo ocupar o serão de domingo a descansar de tanta agitação ou a recompor-me do atrevimento: "O senhor doutor, com tanto livro nas prateleiras, bem podia responder à altura."

Então, por vezes, recolho um romance da estante dos favoritos do velho Doutor Homem, meu pai, geralmente velharias inglesas. Um destes dias deparei com a sabedoria de Miss Mary Ward, personagem de ‘Mansfield Park’, de Jane Austen, traduzida nesta frase pitoresca: "Um bom rendimento é a melhor receita que conheço para a felicidade."

De Jane Austen, verdadeiramente, apenas costumo citar ‘Orgulho e Preconceito’: Dona Ester, minha mãe, achou durante muito tempo que eu me parecia excessivamente com Mr. Darcy, o sorumbático futuro pretendente de Miss Bennett. Não era verdade: ao contrário de Mr. Darcy, que era elegante e antipático, eu apenas tinha boas maneiras. De resto, era o velho Doutor Homem, meu pai, que se imaginava um cavalheiro inglês – não eu, um celibatário de Moledo.

António Sousa Homem crónica em certos aspectos revista Domingo
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