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António Sousa Homem

O primeiro sopro de Primavera em Moledo

O velho Doutor Homem oferecia moedas de cinco tostões aos sobrinhos e netos por cada gladíolo que, arrancassem.

António Sousa Homem 1 de Março de 2015 às 00:30

Aconteceu num dos fins de tarde desta semana – e o visitante de Moledo sabe ao que me refiro, sobretudo tendo em conta os caminhantes que atravessam os pinhais nas traseiras desta casa e se dirigem para as dunas da praia. Falo da floração das giestas do Minho – a minha predilecção vai para a ‘Genista tinctoria’, a giesta das giestas, com a flor amarela viva, de tons maduros e boa para as estampas inglesas emolduradas como primícias de qualquer herbário.

Trata-se, portanto, do primeiro sopro de Primavera. E, ao aparecer a ‘Genista tinctoria’ no meio dos pinhais, soa um alarme por toda a serra, outrora verde, depois aniquilada pelos incêndios, finalmente reverdecendo timidamente.

Tenho, para isso, alguma companhia. A minha sobrinha Maria Luísa acompanha-me na visita pelos carreiros que atravessam os pinhais, esperando que isso contribua para manter em dia o meu fluxo respiratório (ignorando que me queixo, sim, mas das articulações). Já a Dra. Celina, a nossa bibliotecária de Caminha, que ultimamente se dedica a longos passeios pelas serras das redondezas, deixa-me cópias de memórias botânicas de outrora.

De toda a família, só duas almas me acompanharam nos mistérios da jardinagem: a Tia Benedita cultivava e podava roseiras de Santa Teresinha junto das muralhas de granito do velho casarão de Ponte de Lima; o meu avô, administrador de quintas do Douro, transportava com ele – ao longo do vale – rebentos de arbustos, bolbos, sementes e galhos disformes que raramente chegavam a florir, como se fossem raridades acumuladas por um arqueólogo da natureza.

Já o velho Doutor Homem, meu pai, um dândi para todos os efeitos, oferecia moedas de cinco tostões aos sobrinhos e netos por cada gladíolo que, às escondidas, arrancassem do jardim de Ponte de Lima. Ele desprezava os gladíolos, com as suas flores frágeis e inodoras; a Tia Benedita, no papel de vítima, atribuía a devastação a um génio oculto da Carbonária ou a uma vingança divina contra o que ela dizia ser a rendição da família à República e à literatura maçónica.

Desta vez, mal o frio abrandou despertaram as giestas. Mais tarde, ainda antes dos hibiscos e das suas flores orientais, hão-de aparecer as primeiras amostras de vida das mimosas (a ‘Acacia dealbata’) ao longo da estrada para Cerveira. É um sopro de Primavera. A vida tem sentido, afinal.

*Texto escrito com a antiga grafia

crónica de António Sousa Homem
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