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António Sousa Homem

Os pantomineiros na vida política caseira

Por inércia, preguiça e mau feitio a política é evitada nas conversas à mesa.

António Sousa Homem 5 de Maio de 2017 às 00:30
O tio Henrique, que era entusiasta do oboé (em tempos teve o insensato projecto de, nas penumbras verdejantes dos Arcos de Valdevez, compor uma sinfonia para celebrar as aventuras dos portugueses nos sertões africanos – ele estava no ramo militar da engenharia), viveu até tarde e pôde, por isso, votar nas primeiras eleições para presidente da República após 1974. A escolha recaiu no general Eanes porque este, com a sua sisudez, lhe recordava o seu comandante em Moçâmedes, um talento na cavalaria.

A opinião da família sobre os políticos foi sempre ora reservada, ora totalmente estapafúrdia. O meu irmão mais novo (somos cinco), que é economista, diz achar graça a pantomineiros e foi um entusiasta da eleição do Prof. Marcelo, que aguardava todas as semanas para se rir durante os seus comentários televisivos. Já a Tia Benedita, guardiã do miguelismo dos Homem, e que viveu a maior parte da sua vida refugiada em Ponte de Lima temendo o regresso do dr. Afonso Costa e da maçonaria, ignorava totalmente a existência de políticos – e desconfiava que o dr. Salazar (ela sobreviveu dois anos ao professor de Coimbra), por ser celibatário, teria inconfessáveis pecados no seu currículo.

A verdade é que somos uma família que passou ao lado quer dos sisudos, quer dos pantomineiros. Por inércia, preguiça, incompatibilidade com as coisas do mundo, mau feitio e demasiado egoísmo, as coisas da política foram historicamente evitadas nas conversas à mesa. Mesmo a minha sobrinha Maria Luísa, eleitora esquerdista da família, concorda com esta prática já que assim não tem de escutar "conversas ligeiramente reaccionárias". Eu não concordo: a generalidade da família (pelo simples facto de ter assistido a demasiadas revoluções e a consideráveis desmandos desde 1834, data da concessão de Évora-Monte) respeita e tolera as ideias revolucionárias, achando que o mundo vai e vem, que o nosso reino terminou há muito e que a única tarefa decente é a de viver com relativa bonomia.

O meu irmão economista (ele não gosta que eu compare a economia à astrologia) acha que os portugueses, por seu lado, gostam de políticos trangalhadanças, pantomineiros, capazes de dizer à tarde o contrário do que disseram de manhã ou, em alternativa, de falarem desde manhã ao cair da noite. Ele colecciona frases do Prof. Marcelo, com o argumento de que constituem um dicionário de antónimos. Gabo-lhe o esforço, que é descomunal.
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