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António Sousa Homem

Os minhotos que resistiram

O dr. Paulo, que inexplicavelmente – no intervalo dos seus afazeres de jurista – se tem dedicado ultimamente à literatura romântica inglesa, acha que virá em breve o dia em que deixaremos de poder dizer “minhotos” e passaremos a designar-nos por “minhotas e minhotos” ou, de forma mais abrangente, por “minhotenses”.

António Sousa Homem 22 de Maio de 2016 às 00:30

Parece que o seu regresso entusiasta às questões do Direito se deve a motivos sentimentais (têm diminuído as suas visitas a Moledo), mas a ironia não escapou à minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família.

Para interromper o silêncio que pairou por instantes na varanda – aproveitávamos o sol de domingo depois de um passeio pelos pinhais –, limitei-me a lembrar às novas gerações que eu pertencia sobretudo ao passado, e que já não estaria cá na altura em que a "política de género" chegasse ao Alto Minho, onde as principais romarias são consagradas a santas e onde os santos locais são um primor de ironia e malandrice, desconsiderados como um acordeão desafinado. Maria Luísa pacificou. Na verdade, a esquerda simpatiza ligeiramente com a velha ala miguelista.

Num país em que a "vaga liberal" e o "constitucionalismo" vão já com quase dois séculos – para contar com a interrupção do consulado do dr. Salazar, sobre quem o velho Doutor Homem, meu pai, assestava todas as suas armas –, os "bandoleiros com graça" eram reaccionários talentosos, desde o José do Telhado ao José Joaquim Sousa Reis, o Remexido, que a minha sobrinha Maria Luísa acha que merecia um filme biográfico. Os próprios areais de Moledo eram em tempos frequentados por muitos simpatizantes da esquerda que se sentavam ao lado de miguelistas de Afife ou Braga, numa comunhão desconfiada. Mas Moledo, graças ao clima caprichoso, ao vento letal e às águas geladas, foi sempre uma praia anti-democrática. A descoberta do Algarve, aliás, foi uma bênção para o Alto Minho, que ficou entregue às pessoas do século passado, às sestas de Verão e à gastronomia miguelista.

A Tia Benedita gostava de relembrar que os derradeiros fidalgos do Lima, da Barca e dos Arcos, se davam muito com o povo, que compreendiam melhor do que ninguém, e que não abandonavam para se juntar às burguesias socialistas que se bronzeavam do Algarve à Tailândia. Para a minha sobrinha Maria Luísa, nós, os velhos e quase desaparecidos conservadores de província, somos uma espécie de rezingões que resistiram aos administradores concelhios nomeados pelos Cabrais ou pelo dr. Afonso Costa. Isto faz de nós heróis da literatura.

António Sousa Homem em certos aspectos
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