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António Sousa Homem

Recordações de um homem que não gostava de árvores

Afirmava desconhecer as japoneiras e as magnólias nos jardins do Porto.

António Sousa Homem 7 de Abril de 2017 às 00:30
Toda a gente sabe, na família, que o velho Doutor Homem, meu pai, nunca se comoveu com a Natureza – não lhe tinha horror, mas desprezava as cantilenas bucólicas e a enumeração de benefícios prodigalizados pelo oxigénio das províncias, e desistia de um soneto a meio, se o poeta se perdia na contemplação da vegetação – que ele designava, soturnamente, como "a inclinação portuguesa para os legumes". Sendo sobretudo um homem da cidade, afirmava desconhecer a existência de japoneiras e magnólias nos jardins do Porto, mesmo sentado em frente dos espécimes mais raros e frondosos, ou atravessava a penumbra da Praça de Liège, ao fundo da rua onde ficava a nossa casa da Foz, herdada dos nossos avós maternos. Do seu escritório, na Baixa do Porto – a dois passos do restaurante onde almoçava diariamente depois da morte de Dona Ester, minha mãe, e perto do seu alfaiate – não se avistavam as copas das árvores da Cordoaria, que ele considerava dispensáveis.

Naqueles Verões distantes e magnânimos de Ponte de Lima, era costume o velho Doutor Homem, meu pai, pagar cinco escudos a cada neto para que arrancassem gladíolos do jardim, às escondidas. Há uma pequena polémica sobre o assunto: ninguém está verdadeiramente de acordo sobre a quantia com que ele corrompia os netos e a família entende que cinco escudos era uma maquia considerável. Seja. Que fossem quinze tostões – mas duvido. A questão está em que os gladíolos de Ponte de Lima eram uma planta que contava com a devoção estimável da Tia Benedita, matriarca da família e guardiã do nosso pobre miguelismo.

O velho causídico não era um pai de embirrações, mesmo que achasse que os seus filhos adolescentes não lhe mereciam consideração suficiente para querer educá-los. Para nós, criados por uma mãe que nos ensinou a gostar de mar, passeios de bicicleta e Cesário Verde, isso foi uma enorme vantagem.

Durante essas férias de Verão, isolado do mundo e devotado a ouvir ópera e a folhear livros de genealogia, o velho Doutor Homem, meu pai, passava os fins de tarde a observar os campos em redor de Ponte de Lima. Estranhávamos o gesto em homem tão indiferente (mas não avesso) aos arvoredos do Minho, que são ainda objecto de uma das minhas grandes paixões. Ele achava que a Natureza ficava bem na pintura em geral, mas que, vista de perto, tinha inconvenientes.
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