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António Sousa Homem

Uma certa disposição acerca das coisas

O velho Doutor Homem, meu pai, nunca trocou a sua chapelaria de Guimarães.

António Sousa Homem 20 de Outubro de 2017 às 00:30
Como já expliquei duas ou três vezes aos meus benevolentes leitores, e leitoras (a minha sobrinha Maria Luísa, a esquerdista da família, insiste em que eu devo distinguir "leitores" e "leitoras" – e como se dá o caso de ser ela, geralmente, a dactilografar estas crónicas, eu obedeço hipocritamente), ser conservador não assenta num credo político fechado mas, em vez disso, numa certa disposição acerca das coisas do mundo, que inclui também o desejo de não incomodar nem ser incomodado acerca de se ser – ou não – conservador.

O velho Doutor Homem, meu pai, garantia que o seu conservadorismo era tão britânico como o as regatas de Oxford e Cambridge ou os romances de Benjamin Disraeli. Havia nisto – como em quase todo o seu guarda-roupa – um certo dandismo: ele apreciava os obituários do ‘Telegraph’, o seu amado e desconcertante ‘Tristram Shandy’ (o romance que, depois de lido, pouparia a leitura de qualquer outro, para grande surpresa do dr. Paulo, o nosso amigo empresário e ex-leitor dos romances do conde Tolstoi), a memória dos alfaiates em redor de Saville Row (que frequentou, genuinamente, no zénite da sua vaidosa juventude) e uma estante onde guardava os expoentes da poesia romântica inglesa, creio que para o não acusassem se insensibilidade.

Mas havia pérolas de conservadorismo que eram mais intensas e amistosas; por exemplo, a forma como, tempos a tempos, passava pela sua chapelaria de Guimarães, a dois passos do Largo do Toural, para escolher um novo guarda-chuva, um novo chapéu de feltro (ele era exigente nos seus ‘Fedora’) ou um boné de ‘tweed’ (que ele continuava a designar "o meu Ascot") para os passeios de Outono, vindo de caminho armado com um par de suspensórios de fantasia ou, até, um panamá para oferecer ao Tio Henrique, o nosso prodigioso amante de música, que sofria bastante com enxaquecas mal vinha a luz da Primavera.

A chapelaria Júpiter – era esse o nome da loja, e não sei se Guimarães ainda a contará entre as preciosidades do seu património – recebia-o tão discretamente como se se tratasse de um príncipe eslavo que viesse a Paris abastecer-se de civilização.

E porque não poderia ele mudar de alfaiate (nos Clérigos) ou de chapelaria (a Júpiter, em Guimarães)? Porque também não se pode mudar a belíssima música dos pinhais de Moledo. Porque não se pode mudar a nossa disposição para a felicidade das pequenas coisas. Porque somos assim.
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