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António Sousa Homem

Uma visita holandesa ao reino de Moledo

A Holanda produz seres interessantes, cómicos e a necessitar de reparação.

António Sousa Homem 24 de Março de 2017 às 00:30
Isabelle, ‘a pequena holandesa’, namorada do meu sobrinho Pedro, foi a nossa comentadora oficial das eleições no país das tulipas. A designação é audaz, segundo percebi, porque a mais larga percentagem de tulipas que se vendem em Amesterdão não são produzidas nos Países Baixos, à beira dos pólderes, entre moinhos e estações elevatórias.

A bióloga frísia (a Frísia é uma província no norte daquele país), que se ausentou da Holanda na semana passada por lá haver eleições – um argumento que me fez corar de simpatia – veio a Portugal participar num congresso de oceanologia e passou o fim de semana em Moledo, a tentar convencer a população indígena de que "a praia estava convidativa", e de que nós éramos mais felizes do que os holandeses porque o Verão começava aqui mais cedo.

Dona Elaine, a governanta deste eremitério de Moledo, olha para aquela enviada do Mar do Norte com uma curiosidade letal, considerando que a Holanda produz seres interessantes, cómicos e a necessitar urgentemente de reparação e sensatez no termóstato. Na verdade, aos primeiros raios de sol de sábado – tímidos e filtrados pela copa dos pinheiros –, Isabelle quis saber se já tínhamos inaugurado a época balnear, ameaçando ir até ao areal para comprovar a existência de uma nova doença, a "demência tropical holandesa". Habituada às correntes geladas da Frísia, foi necessário que o meu sobrinho Pedro lhe recordasse que o solstício de Verão chega em simultâneo à baía onde se aloja a Ínsua, de onde se observa o esplendor mágico de Santa Tecla, e ao porto de Roterdão, de uma beleza infinitamente menor – ou seja, que em Moledo ainda vigorava o Inverno apesar de haver turistas (provavelmente holandeses) estirados nas cadeiras da esplanada de Caminha, exibindo epidermes transparentes e descoloridas.

Dona Elaine, para quem o estrangeiro começa antes da ponte que junta as duas margens do rio Minho, entre Caminha e La Guardia, e que sustenta que devia ser exigido passaporte aos espanhóis que vêm comer bacalhau a Cerveira, acha (erradamente) que todas as opiniões e ideias da ‘pequena holandesa’ são ligeiramente estapafúrdias. Isabelle tenta comovê-la dizendo-lhe que "este ano" quer vestir-se de mordoma nas festas da Senhora da Agonia. Mas Dona Elaine não acha bem: ela suspeita que, por detrás daquela simpatia, há uma herege calvinista a querer defraudar o catolicismo minhoto. 
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