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António Sousa Homem

Uma demanda sobre o centro do mundo

"A ideia de viajar até ‘às Hébridas’ não implicava algumas coisas simples desta vida, como tomar um barco para Dover ou um avião para Londres e Edimburgo (...) mas ‘gostar de ter lá estado’."

António Sousa Homem 6 de Março de 2016 às 01:45
Entre os familiares mais chegados era sabido que o velho Doutor Homem, meu pai, ambicionou durante toda a vida fazer uma viagem até "às Hébridas". A menção "às Hébridas" não tem a ver com o arquipélago do oeste da Escócia (para sermos mais directos: aquilo que o Alto Minho litoral é para a geografia portuguesa) mas com a viagem encetada em 1773 por Samuel Johnson, o Doutor Johnson, erudito dos eruditos, a convite do seu biógrafo James Boswell.

‘A Journal of a Tour to the Hebrides’, de Boswell, é um modelo de peregrinação intelectual com que o velho Doutor Homem, meu pai, sonhou durante os seus anos de leitor impenitente (possuía uma segunda edição do livro, que está entre as raridades do velho casarão da família, como recordação dos seus verões pachorrentos). A verdade é que, até se finar, em finais de 1974 – assistiu à revolução e pôde ainda corresponder-se com o Dr. Palma Carlos – nunca o velho Doutor Homem, meu pai, subiu no mapa do Reino Unido a norte de Stratford-upon-Avon (para visitar o que teria sido o berço de Shakespeare) e de Cambridge.

Ou seja, a ideia de viajar até "às Hébridas" não implicava algumas coisas simples desta vida, como tomar um barco para Dover ou um avião para Londres e Edimburgo, seguindo depois sempre para Noroeste – mas "gostar de ter lá estado". Ora, tendo sido impossível acompanhar o Doutor Johnson e o duvidoso Boswell nas suas caminhadas pelas verdes colinas de Skye (onde pernoitou o infeliz Bonnie Prince Charlie, o último dos Stuart), ou abrigar-se numa estalagem batida pelo vento, à maneira de Robert Louis Stevenson, o de ‘A Ilha do Tesouro’, o velho Doutor Homem, meu pai, preferia ficar tranquilamente instalado no Porto e no Alto Minho, onde pelo menos não chovia tanto.

A minha sobrinha Maria Luísa não se satisfaz com esta explicação. Ela acredita que ao género humano não basta desejar uma coisa (uma viagem, um livro, uma experiência de vida, uma história romântica), mas que é necessário realizá-la. Ao não se realizarem os sonhos de uma vida – acredita a eleitora esquerdista da família – restam apenas a frustração e a melancolia, e em doses elevadas, suponho. É assim que constrói a infelicidade.
O Tio Alberto, que viajou por quase todo o mundo conhecido (excepto o Canadá, evidentemente), considerava que o centro da Terra, pelo menos depois de Copérnico, era uma certa lagoa em S. Pedro de Arcos, em Ponte de Lima. Quem não gostaria de "ter lá estado"?
Doutor Homem Shakespeare
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