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Baptista-Bastos

Mudar de vida

Desempregados aos milhares, mais do que as estatísticas da mentira no-lo dizem.

Baptista-Bastos 23 de Dezembro de 2015 às 00:30
E há o Banif: temos de pagar sem saber porquê; e ninguém é preso. E há as armadilhas colocadas no caminho do novo Governo. E há o Podemos, em Espanha, na continuidade da convulsão que está a sacudir a Europa.

E há as irmãs Mortágua, e a Catarina Martins, e a Marisa Matias, cujos discursos expõem uma genuinidade que desaparecera no turbilhão de mentiras indecorosas. E há o Syriza, que não morreu, apesar do cerco e do esmagamento urdido por um capitalismo cego e cruel.

E há uma União Europeia que jamais o foi, instituída para manter o ‘sistema’ e o ‘sistema’ não é uma estrutura político-económica, é uma organização nefanda por sinistramente criminosa. E há os milhares de refugiados de todos os medos, que procuram na Europa o lar que lhes roubaram.

E há aquele miúdo sírio, morto numa suja praia turca, e as águas negras fazem mover a pequena cabeça, e a cena é trágica por medonha e desolada. E há o Passos e o Portas, resíduos do que foi o que deixou de o ser. E há os nossos velhos atirados para os jardins de solidão e de espanto. E há os nossos miúdos que vão para a escola sem comer.

E há os nossos escritores, os nossos artistas, enfim, calados que nem ratos ante o descalabro da pátria inerte. E há os desempregados aos milhares, muito mais do que as estatísticas da mentira no-lo dizem. E há o que nos não dizem, num embuste e numa omissão raramente observados.

E há quase 500 mil jovens forçados a abandonar a pátria, porque a pátria, esta que aí está, lhes nega lugar e estímulo. E há o terrorismo, que tem causas sonegadas pela ‘grande’ informação, e que esclareceriam o que precisamos de saber. E há a perda da própria pessoal clarividência.

E há as televisões que nos impõem a mixurucada da cretinização, perante a passividade e a conivência dos que teriam por missão escrever e relatar a verdade ou a procura dela. E há este mundo mandado pelos ‘mercados’, entidade enigmática, nunca escrutinada, que sobrelevou a política e a moral. E há "sempre alguém que resiste, sempre alguém que diz não", essa esperança longínqua e tão próxima dos que subsistem, dos que desobedecem, dos que acreditam ser possível a felicidade entre os homens.

Mas há o Natal. O Natal velho e, no entanto, sempre rejuvenescido. O Natal que estará connosco, mesmo quando já cá não estivermos. O Natal, meu Dilecto, o Natal.
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