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Baptista-Bastos

A feira cabisbaixa

Os chefes da coligação perderam a oportunidade de se desculpar ao País.

Baptista-Bastos 19 de Agosto de 2015 às 00:30
A romaria do Pontal constituiu um exercício de prestidigitação, a continuação do embuste e uma humilhação para Paulo Portas. Foi destinado a ‘aquecer’ a reunião: não o conseguiu porque a plateia estava distante e gelada. Além do que era o apêndice, o sobressalente e, notoriamente, o não-desejado. Mostrou-se fatigado, de palavra indolente e, pior do que tudo, apresentou a avançada calvície, que nenhum penteado hábil consegue ocultar. Seguiu-se Passos Coelho, também ele atacado de alopecia galopante, demonstrativa de que o poder, além de embriagador, castiga quem de ele abusa. Sem ironia: Séneca fala disso nas ‘Cartas a Lucílio’, cuja leitura recomendo vivamente.

Os dois homens revelaram-se abúlicos no discurso, por repetitivo e carecido de idealismo e de princípios. Não os têm, nem um nem outro. E a destreza leviana com que insistem nas mentiras faz lembrar a frase de Goebbels: uma falsidade repetida mil vezes fica com a configuração da verdade. Mas nós é que pagamos. A política não permite nem assimila tudo. E os chefes da coligação perderam a oportunidade de se desculpar pelo que fizeram ao País; ao País, não: aos mais desfavorecidos dos portugueses, que nunca estiveram tão mal como agora. Além de sermos cada vez menos.

Assistimos ao pessoal que frequenta, habitualmente, a festa da Direita, e percebe-se a existência de duas nações, que não se conubiam, por absoluta impossibilidade cultural: eles e nós. Pergunta a minha malvada curiosidade: esta gente pode ser feliz, conhecedora da calamidade que nos infligiu ou de que se cumpliciou? Pires de Lima é filmado a rir; Assunção Cristas a cantar, mas os semblantes são sombrios, velados e merecedores da nossa total abjecção. Portas, como um pássaro tonto, olhava de um para outro lado, sem se fixar em coisa alguma.

Independentemente do sofrimento que têm causado, ao destroçarem os sonhos e as esperanças de muitíssima gente, que gente é esta, sobrevivente do mal que provoca? Mas, apesar de serem os vencedores do momento, perpassa nos seus rostos a apreensão segundo a qual nada permanece sempre na mesma. Há algo de receio que paira no ar. No Pontal, essa intuição era como que um lúgubre pressentimento. Apesar dos risos e da alegria, tudo era postiço, cabisbaixo e forçado.
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