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Baptista-Bastos

Afinal, é possível

A verdade é que esta união de partidos coloca um ponto final na ‘deriva de direita’ do PS.

Baptista-Bastos 11 de Novembro de 2015 às 00:33
Os jogos estão feitos. Os problemas começam agora, com armadilhas pensadas, ciladas previstas, traições, renúncias e apostasias. Álvaro Beleza, um rosto da abjuração, foi contemplado com generosas páginas do ‘Público’ sempre muito atento a estas dissidências, e declarou: "O PS anda numa deriva esquerdista." Pergunta a curiosidade comum: mas, para Beleza, o PS não é de esquerda? E a linguagem do distinto não pertence, ela sim, ao vocabulário do PREC? A verdade é que esta união de partidos coloca um ponto final na ‘deriva de direita’ do PS, e esclarece, sem margem para dúvidas, que António Costa obteve apoio maioritário, diria mesmo: esmagador, dos órgãos dirigentes do seu partido.

Não vou perder tempo com a miuçalha; regozijo-me pelo facto de, ao fim de 40 anos de perplexidade e de esperanças truncadas, viver num país onde, finalmente, um milhão de portugueses, antes excluídos por preconceitos ideológicos, poderem ter voz e opinião através dos seus representantes.

É uma grande vitória da democracia e da maturidade política dos que decidiram enfrentar o cerco e o esmagamento impostos de fora, e que faziam de Portugal um país de segunda e dos portugueses mentecaptos. Manuel Alegre resumiu, na noite de todos os entendimentos, a excepcional importância do compromisso histórico, endereçando um abraço a Jerónimo de Sousa. O PCP abdicara da sua tendência hegemónica à esquerda para acompanhar a marcha da História.

O alvoroço assustado da direita forneceu o retrato de uma mentalidade obsoleta, de um pensamento absurdo por abstruso, e de uma gente só interessada em caucionar os privilégios de casta. Aliás muito pouco inteligente, como se tem visto e ouvido pelas declarações dos seus apaniguados.

O que foi não voltará; ou, se voltar, terá a configuração de uma ópera-bufa. Os protagonistas desta grande reviravolta vão ser alvo de calúnias e objecto de perigos enormes, a adivinhar pelos enleios já afirmados na retórica da direita. Abriu-se uma ruptura nos hábitos e nos costumes políticos em Portugal. Uma componente importante da liberdade foi adicionada ao tecido democrático. O dr. Cavaco nada tem a ver com isto.

Não deve estar muito contente. Mas o que ele decidir é irrelevante. E, entendeu-se, o papão do comunismo, a cultura do medo não resultaram. Como se dizia no Maio de 68, só devemos ter medo do medo que criamos em nós próprios.
Álvaro Beleza PS António Costa Portugal Manuel Alegre Jerónimo de Sousa PCP Cavaco
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