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Baptista-Bastos

O artifício

A demonstração cívica resulta de um sentimento generalizado dos povos contra a selvajaria de que o terrorismo é uma face.

Baptista-Bastos 14 de Janeiro de 2015 às 00:30

A imponente manifestação de Paris contra o terrorismo e a barbárie representa não só uma invulgar presença popular como uma instância ética que delimitou os campos e não misturou a história. Se eu pudesse estar lá, colocava-me na imensa mole dos que protestam com justa causa, sem os enfeites pérfidos que as circunstâncias talvez imponham, mas nunca justificam ou amenizam. Esclareçamo-nos: na primeira fila, compungidos, alinhavam-se chefes de Estado
e de governo responsáveis ou cúmplices directos das maiores atrocidades da nossa época. A demonstração cívica resulta de um sentimento generalizado dos povos contra a selvajaria de que o terrorismo é uma face. Mas a responsabilidade oculta-se em muitos desses senhores, praticantes ou executantes do terrorismo de Estado, cuja falsidade é maquilhada pela compunção momentânea, aposta nas faces mentirosas, para a fotografia e para as câmaras de filmar.

A manifestação de Paris constituiu um abuso desavergonhado dos sentimentos das pessoas. E fez parte da estratégia de simpatia de que o poder se serve para ocultar a verdadeira natureza das suas características deformadas. Os jornalistas do ‘Charlie Hebdo’ foram a demonstração de convicções, de coragem, de integridade e de liberdade, enfrentando todos os perigos e pondo em risco as próprias vidas. O imenso protesto popular correspondeu à noção de condição humana, sempre divulgada quando acossada na sua relação essencial com a vida.

O ‘sistema’ não condena quem prevarica em seu nome. A lista de ‘notáveis’ escolhida e convocada pelo ‘socialista’ François Hollande é, na súmula, um conjunto de pessoas que, de uma forma ou outra, aberta ou cumpliciando-se na sombra e no silêncio colaboraram, têm colaborado, com assassínios ideológicos, praticado políticas de exclusão, apoiado ditadores sangrentos e promovido golpes de Estado em países de governos democraticamente eleitos. A profanação dos ideais que essas pessoas apregoam como pertença da civilização ocidental tem sido feita e continua a sê-lo por elas próprias, aquelas que desfilaram, sem pudor, na primeira fila da contestação de Paris.

Foi uma mascarada. Nada vai mudar de significativo porque o ‘sistema’ não se modifica a si mesmo.

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