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Baptista-Bastos

O cerco implacável

A força da razão e da democracia têm-se oposto, com relativa eficácia, aos desmandos.

Baptista-Bastos 8 de Julho de 2015 às 00:30
Na Grécia, a vitória do ‘não’, por substancial maioria, veio pôr a nu o verdadeiro rosto da chamada União Europeia, que não passa de um embuste muito bem articulado, com seus serventuários e estipendiados. O cerco e o esmagamento do Syriza estavam no programa e a contra-informação mais despudorada revelou os seus objectivos mais sórdidos.

Segui, um pouco arfante, os noticiários das televisões, nacionais e estrangeiras, e o fechado e lúgubre semblante dos nossos comentadores do óbvio, com excepção de dois deles, forneceram-me a imagem das suas decepções. Aliás, durante as últimas semanas, a manipulação da forma e do conteúdo constituiu um vergonhoso retrato do estado actual da nossa comunicação social. Repugnância e vómito.

O lado humano desapareceu em benefício do número e da estatística; as presenças constantes de gente que nada diz oposto ao pensamento único tornou-se enfadonho por bocejante; e o modo enfaticamente tolo com que Passos Coelho se foi referindo aos acontecimentos gregos tornaram- no credor do nosso profundo desprezo.

As evasivas e as ambiguidades do PS também não caucionaram a nossa admiração; mas o PS é isso mesmo: um almofariz de ambições cujo resultado, ao longo dos anos, tem sido esta mistura trágica que o leva a não ser carne, nem peixe, nem arenque vermelho.

O torpe amolecimento ideológico no qual a Europa tem vivido proporciona o aparecimento de movimentos contestatários como o Podemos, em Espanha, ou o Syriza, na Grécia. Haverá mais, não tenham dúvidas. Ninguém pode viver neste mercado insalubre onde o capitalismo mais desaforado sobrevive, mandado por uma alemã medíocre, acolitada por um francês, aleijado mental e tudo. Pequenos títeres do mundo financeiro e do sistema de ‘mercado’ que transformaram a Europa num vastíssimo território de miséria e infortúnio.

Claro que a retaliação ao governo grego e a perseguição dos senhores do poder, como sejam os bancos e as estruturas económico-financeiras, começaram os seus enredos. O governo alemão já o disse: "As conversações com a Grécia são dificilmente imagináveis." Mas a força da razão e da democracia têm-se oposto, com relativa eficácia, aos desmandos de uma Europa que só existiu na duvidosa bondade dos seus idealizadores.
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