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Baptista-Bastos

O nosso infortúnio

Caracterizar os banqueiros e os patrões como gente feia.

Baptista-Bastos 1 de Abril de 2015 às 00:30

Há uns domingos, assisti à parte final da liturgia religiosa em uma igreja dos arredores de Lisboa. Não sou frequentador, nem habitual nem ocasional, mas fui atraído por um grupo de raparigas negras, que cantava e dançava com vestes coloridas e movimentos cadenciados e muito belos. Pareciam as bailadeiras da Zavala a cujas danças assisti, há muitos anos, próximo de Maputo. Findos os ritos, uma senhora muito antiga aproximou-se do cónego que oficiava e, acaso um pouco desabrida, perguntou-lhe: "Porque nos aconteceu isto?" Isto era a circunstância em que vivíamos, a malfadada época da fome, do desemprego, da miséria rastejante, não, claro!, o lindíssimo espectáculo a que assistíramos. Nada do infortúnio era previsível, apesar de Pedro Passos Coelho ter advertido, logo no começo das suas funções, que iria promover o empobrecimento do País para o salvar da bancarrota. A mentira como biombo das intenções. Os atingidos não foram os Belmiro, os Amorim, os Salgado, os Ulrich, claro!, sim os mais débeis, os desafortunados, os que povoam o mundo do trabalho. Como é evidente. "Ai aguentam, aguentam!," para recuperar a frase canónica do tal Ulrich.

Associei estes episódios, aparentemente diferentes, a uma torpe afirmação do Pacheco Pereira, no círculo em que se encontra com o Jorge Coelho e com o Lobo Xavier, este a imagem devolvida do "pipi" dos anos 50, brunido, penteadinho, direitinho. Dizia o cavalheiro Pacheco, com a soberba e a presunção reconhecidas, que a Esquerda tinha por norma caracterizar os banqueiros e os patrões como gente feia, pavorosa e sem princípios. Os últimos acontecimentos são de molde a dar razão a quem assim pensa, mas o Pacheco é do contra, depois de ter sido muito a favor. Ideias de quem sofre de pequenas angústias quotidianas.

Mas o homem é irrelevante por passageiro e ausência de credibilidade; importante, isso sim, é a senhora antiga e a pergunta formulada ao cónego. Nada fizemos que merecesse esta punição, embora o sr. dr. Passos Coelho decretasse que tínhamos de pagar o que gastáramos a mais! São nojentas as afirmações deste jaez e estilo, quando a referência é um povo como o nosso, secularmente ultrajado pela violência e sacudido pela sobranceria de uma classe ignara e imbecil. 

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