Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
3
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Baptista-Bastos

Ódio velho não cansa

A vontade alemã prevaleceu e, mesmo assim, Schaueble confessou-se insatisfeito.

Baptista-Bastos 22 de Julho de 2015 às 00:30
A Europa, tal como no-la queriam apresentar, generosa, fraterna, límpida, acabou. Nasceu o IV Reich, na lúcida expressão do meu camarada Armando Esteves Pereira, e esse nascimento não augura nada de bom. O golpe alemão na Grécia deitou o balde de cal num cadáver pútrido que só servia para engalanar as vaidades de Angela Merkel e o psicotismo de Wolfgang Schaeuble. A humilhação persistente, as indignidades cometidas ao povo grego não mereceram de nenhum dos membros da ‘União’ Europeia o mínimo reparo, a mais módica expressão de repulsa. O inexcedível primeiro-ministro português chegou a dizer que a sua intervenção fora decisiva para a solução do problema. Depois, um ex-ministro polaco reiterou para si o discurso da resolução; e, como não há duas sem três, um holandês igualmente considerável reclamou-se o mérito da iniciativa. Três mentirosos, ou apenas um, aquele, relapso e contumaz, que conhecemos como tal?

A verdade é que a vontade alemã prevaleceu e, mesmo assim, Schaeuble confessou-se insatisfeito: queria mais rebaixamento e mais pesada afronta a quem ousara desafiar o domínio germânico e propor uma nova Europa, enraizada na generosidade solidária como fora o antigo propósito. Chegou-se à miséria a que se chegou, e bastava olhar para o rosto fechado e trágico de Tsipras para se entender o grau de aviltamento a que estivera obrigado por um grupo de países que só dança ao som do banjo do suserano. A Alemanha, evidentemente.

Porém, tudo indica que o fim da partida ainda não chegou. O Syriza continua a obter os favores calorosos dos gregos, e os alemães aumentaram o ódio e o desprezo que por eles nutre um povo de onde veio tudo o que cultural e moralmente somos [Hélia Correia]. A ruptura aberta não é cauterizável a curto prazo, e ódio velho não cansa. Depois, o regozijo de Merkel, cujo desconhecimento de causa se torna cada vez mais evidente, pois a senhora não passa de factótum de grandes interesses, irritou, ainda mais, a nação grega.

Li o que alguns preopinantes por aí escreveram: os mesmos de sempre, sem entender que as tendências hegemónicas germânicas não são de agora, e a ânsia de domínio não poupa inclusive aqueles que se rebaixaram até à ignomínia. Recordo Manuel Alegre: "Mesmo na noite mais triste/ em tempo de servidão,/ há sempre alguém que resiste,/ há sempre alguém que diz não."
Ver comentários