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Carlos Anjos

Noite de touros na Feira de Maio da Moita

Uma noite agradável, um cartel ambicioso, mas esperava-se mais público, mais ambiente.

Carlos Anjos 28 de Maio de 2017 às 00:30

Uma noite agradável, um cartel ambicioso, na feira de Maio da Moita, esperava-se mais público, mais ambiente. Ainda assim uma casa agradável cerca de três quartos, gente com afición, mas dado o cartel, ficou algum amargo de boca. O empresário Rafael Vilhais merecia um pouco mais e a festa também.

 

1º Touro da Ganadaria de Maria Guiomar C. Moura acusou na balança 540 quilos e foi lidado por Diego Ventura

Diego Ventura recebe bem o touro, dobrando-se bem com ele, bregando em pouco mais de um metro quadrado, num desenho em que cavalo e touro, fazia quase um círculo. Cravou os dois compridos da ordem e foi mudar de cavalo.

Regressa à arena montando o cavalo Nazarí um dos seus cavalos estrela. Crava quatro curtos, onde este muito melhor na preparação dos ferros e na brega a duas pistas que se lhe seguia do que na cravagem dos ferros. Uma lide onde a preparação e brega foi excelente. Se o momento da cravagem dos ferros tivesse sido igual à qualidade da brega, teria sido uma lide de exceção. Mas isto, era difícil, num touro que se parava no momento de investir para o cavalo, dificultando assim o trabalho de Ventura, que por vezes ficava sem touro e tinha de adiar a reunião, segundos que levavam a que o ferro não tivesse o brilho esperado.

Ventura ia embora, mas o público pede mais um ferro que Manuel Gama, o diretor de corrida autoriza. Vai então buscar o cavalo Remate e coloca três palmitos em sortes de violino, bem executadas, mas que pouco acrescentaram à lide.

Para a pega, José Maria Bettencourt, cabo do Aposento da Moita, resolveu dar o exemplo à sua rapaziada e abriu praça para motivar as hostes. Forcado elegante, que sabe estar, citou com classe, deu vantagens ao touro como o Aposento da Moita sempre dá, mandou da investida do oponente. O touro arrancou com pata, investiu com força mas sem maldade, e Zé Maria agarrou-se com ganas. O touro entrou pelo grupo dentro e quando todos davam a pega como consumada, eis que o touro consegue fugir ao grupo, valendo uma preciosa ajuda de Bernardo Cardoso, o 2.º ajuda, que abafou o touro, levando a que a pega se consuma-se com brilhantismo.

Volta para Diego Ventura e José Maria Bettencourt.

 

2º Touro da ganadaria Juan Pedro Domecq, pesava 490 quilos, e foi lidado pelo matador Roca Rey

Muita era a expetativa na Moita para ver Roca Rey. Temia-se que viesse cansado, pois tinha toureado horas antes dois touros em Cáceres, onde abriu a Porta Grande. Saiu de imediato para a Moita, num helicóptero especialmente fretado para o efeito. Mas o adiantado na hora, e com o anoitecer, o Helicóptero foi obrigado a aterrar em Évora, tendo o resto do caminho sido feito de táxi até à Moita, onde chegou já depois da hora prevista para o início da corrida. Deu o segundo quite ao matador português Cuqui, que estaria de reserva ao matador espanhol.

Perante um touro com pouca força, mas que servia razoavelmente para a função, efetuou uma faena completa, toureando por ambos os pitóns, sacando tudo o que o touro tinha e que não era muito.

Roca Rey esteve de facto muito por cima do touro, tendo o público da Moita sublinhado a faena com calorosos aplausos, podendo-se dizer que triunfou nesta 1.ª lide.

Ficou água na boca, para as duas lides seguintes.

Roca Rey – Volta

 

3º Touro da Ganadaria de Maria Guiomar C. Moura acusou na balança 515 quilos e foi lidado por Diego Ventura

 

Voltou Diego Ventura para enfrentar o 3.º touro da noite. Como é seu timbre, Ventura montano o "Anejo" voltou a receber o touro de forma extraordinária, dobrando-se muito bem com ele. Crava um primeiro ferro polémico, muito à Rojoneio, não indo de frente para o touro, mas "enrolando-se", para deixar o ferro. Escutou os primeiros assobios, pois aquilo significa muito pouco em terras lusas. O segundo comprido, sem ser nada do outro mundo, foi claramente melhor.

Trocou de cavalo, indo buscar outras das suas estrelas, o cavalo Sueño. Conhecendo bem o toureiro e aquele cavalo, a expetativa subiu muito na moita, até porque este segundo touro de Ventura, era mais franco de investida, por vezes queria comer o cavalo, e anunciava uma excelente lide e um excelente espetáculo. E a dupla Ventura – Sueno não desiludiu. Novamente se assistiu a uma brega brilhante, tendo a mudança relativamente à lide anterior ocorrido na cravagem dos ferros que agora foi mais clara, mais cingida, tendo os ferros, sido todos cravados de alto a baixo, e as distâncias entre touro e cavalo sido muito curtas.

Diego Ventura foi buscar o Roneo e com o touro mais cansado, fez o que parecia impossível, que foi encurtando ainda mais as distâncias, ligando ainda mais a lide aí então, distâncias quase invisíveis e um toureio muito ligado. Cravou um único ferro com este cavalo, depois de uma preparação extraordinária, deixou um enorme ferro, o melhor até este momento, tendo rematado a lide com enorme classe.

Uma lide de excelente qualidade, melhor que a anterior, e que mostrou que Ventura vinha para comer tudo.

Ventura a top, premiado com sonoras ovações, escutando música logo após o primeiro curto.

 

Para a segunda pega da noite, saiu Nuno Inácio, que aparentemente se despediu esta noite. Esperamos que não, Nuno Inácio é hoje um dos forcados estrelas do Aposento da Moita e nesta fase de transição e de reconstrução do grupo, o grupo precisa dele por mais tempo. E Nuno Inácio demonstrou todos os seus recursos. Mandou na lide, deu vantagens e mesmo não entrando bem na reunião, com sabedoria e principalmente devido à sua grande experiência e aos muitos touros pegados, corrigiu, emendou a sua entrada mais deficiente e com o grupo a ajudar bem, consumou bem a segunda pega.

Volta para Diego Ventura e Nuno Inácio.

 

4º Touro da ganadaria Juan Pedro Domecq, pesava 505 quilos, e foi lidado pelo matador Roca Rey

 

O touro de Juan Pedro Domecq, era claramente inferior ao saído em primeiro lugar para Roca Rey. Com menos cara, menos trapio e menor transmissão, não anunciava nada de melhor.

Roca Rey bem tentou, conseguiu mesmo sacar alguns lances de capote e alguns passes de muleta, mas nada de significativo.

Andou bem o matador, mas perante a falta de qualidade do oponente, era difícil o sucesso, ou sequer, fazer algo, que no futuro, recordássemos.

 Volta concedida a Andrés Roca Rey, certamente apenas pelo seu labor, já que muito pouco ficou desta faena.

 

5º Touro da Ganadaria de Maria Guiomar C. Moura acusou na balança 550 quilos e foi lidado por Diego Ventura

Regressou à arena Diego Ventura para lidar o seu terceiro toiro o quinto da corrida. Tal como todos os touros saídos a Ventura, pertencia à ganadaria de M. Guiomar Cortes de Moura. E foi o melhor touro da noite.

Ventura recebe-o como recebeu os outros três, dobrando-se bem com ele e cravou dois bons compridos, os seus dois melhores compridos desta sua passagem pela noite. Dois compridos a abrir o quarteio e a cravar em reuniões ajustadas, de cima a baixo, como manda a cartilha.

Foi trocar de cavalo, fazendo entrar na arena o "Fino", cavalo que em terras lusas, não tinha ainda a fama do "Nazari" e do "Sueno". Não tinha, porque depois desta atuação, certamente passará a ter.

Ventura e o Fino montaram positivamente o taco. Os ferros foram-se sucedendo e cada um era melhor que o anterior, sendo que a cada reunião, o público levantava-se para a aplaudir. Bem a preparar o ferro, esperando enormidades, depois com batida ao pintón contrário, deixava os ferros cravados em reuniões onde não cabia coisa alguma e rematava com piruetas ajustadas na cara do touro e com o touro a andar., a querer marrar. Extraordinário.

Toda a lide fica para recordar, mas mesmo assim, não podemos deixar de destacar o terceiro curto, quando depois de citar e com o touro a investir, aguentou uma barbaridade, recuou na cara do touro e nos médios, faz uma batida ao piton contrário e deixa um ferro de compêndio, só ao alcance dos sobredotados, que montam cavalos sobredotados. Verdadeiramente extraordinário.

Depois o ultimo ferro da corrida. Ventura chamou à praça a cavaleira Mara Pimenta que era a sua substituta, como se fosse possível. Mara entrou na arena da Daniel do Nascimento num momento muito difícil para qualquer toureiro experiente, mais ainda para ela, dado a entusiamo que se vivia com a lide de Diego Ventura. Mara cravou um primeiro ferro muito deficiente, Ventura apercebeu-se e mandou-a cravar um segundo. Mara cravou então o segundo, melhorzito, mas ainda algo deficiente. 

Ventura foi então com o Fino para cima do touro que estava encostado a tábuas. Parou o cavalo a três, quatro metros do touro. Nem o touro, nem o cavalo mexiam. Só Ventura gritava tentando provocar a investida do touro. O tempo parou. Não sei se segundos ou minutos. A praça calou-se. Eis que o touro arranca e numa caixa de fósforos das pequenas, o Fino faz a batida ao piton contrário, Ventura deixa o ferro, roda por dentro, encostado a tábuas e quando o touro se vira para o perseguir, faz uma pirueta na cara do touro. A Daniel do Nascimento veio abaixo.

Ventura agarrou-se à cabeça, como a dizer "meu Deus o que fiz eu" e depois como cavaleiro experiente, sabendo que lhe iam pedir mais um ou mais dois ferros, desmonta-se, pede um aplauso para o cavalo, mandando também Mara Pimenta sair da arena, dano a lide por terminada.   

Lide apoteótica.

Para a cara do quinto da noite, foi o forcado Leonardo Mathias. Citou com classe, provocou a investida do touro, o qual arrancou para comer o grupo. O forcado não se conseguiu fechar e foi desfeiteado.

Voltou lá à segunda tentativa. Fez tudo igual. O touro também voltou a fazer tudo igual. Arrancou com pata, com vontade de comer o grupo. Desta vez Leonardo alapou-se ao touro, fechou-se com ganas, o grupo ajudou com garra e a vontade dos forcados, foi maior que a do touro, consumando a pega.

Volta para Diego Ventura e para o forcado Leonardo Matias. Finda a volta e devido à insistência do público, o diretor de corrida autoriza Diego Ventura a mais uma volta. Ventura chama o forcado e ele aceite e dão os dois uma segunda volta.

Este mal o forcado. A volta devida ser unicamente para Ventura. A pega foi enorme, mas não para duas voltas.

E a corrida devia ter acabado aqui.

 

6º Touro da ganadaria Juan Pedro Domecq, pesava 510 quilos, e foi lidado pelo matador Roca Rey

A última atuação da noite foi novamente para o matador Andrés Roca Rey.

Não se passou nada. Perante um touro sem cara, sem trapio, até um pouco "avacalhado", sem condições de lide, não havia possibilidades de sacar fosse o que fosse.

Não há nada para contar relativamente a esta lide e a este touro.

Andrés Roca Rey não deu volta.

 

Bom jogo dos touros de Maria Guiomar Cortes de Moura que saíram em crescendo, sendo o último o melhor, touros que possibilitaram um enorme triunfo a Diego Ventura.

Um curro sofrível o enviado à Moita pelo ganadeiro espanhol Juan Pedro Domecq. Salvou-se o primeiro do lote de Roca Rey, o único que permitiu ao jovem matador peruano, mostrar um pouco do seu enorme valor. Os outros dois, o quarto e sexto da corrida, principalmente este último, não tinha qualquer qualidade para ser corridos em praça.

Por último, uma palavra para o Grupo de Forcados do Aposento da Moura, que partilharam o cartel com dois figurões do toureio mundial, e não se acobardaram. Foram para cima dos touros e demonstraram que estavam ali, para sair por cima dos oponentes, como viria a acontecer. Bem o cabo José Maria Bettencourt, que a decidir que tinha de ser ele a dar o exemplo e a abrir praça pelo grupo, já que é assim que fazem os lideres. Nos momentos a doer, quando não se pode falhar, quando a responsabilidade aumenta, cabe-lhes a eles assumirem-se. É por isso que lideram o grupo, é isso que o grupo espera deles. Depois a dedicar a sua pena a Diego Ventura e a Roca Rey, dizendo-lhes que estavam na casa dele, que eram bem vindos, mas que não queriam apenas fazer parte do cartel. Queriam ser protagonistas. E foram.

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