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Carlos Anjos

O caso do aeroporto de Lisboa

Vivemos hoje numa sociedade de risco.

Carlos Anjos 3 de Agosto de 2016 às 15:35

Vivemos hoje numa sociedade de risco. A última década do Séc. XX já anunciava isso, situação que se materializou de forma muito concreta neste início do novo Século. O desenvolvimento das tecnologias da informação, como a ligação progressiva de todos os nossos dispositivos à Internet, tais como os cartões de crédito e débito, os carros, os GPS, as nossas próprias casas, com a possibilidade de as comandarmos a partir do nosso telemóvel, para falar apenas dos mais conhecidos e banais, sem dúvida nenhuma que vieram facilitar-nos a vida, mas ao mesmo tempo, tornaram-nos mais vulneráveis, a novas formas de intrusão na nossa vida, existindo hoje a possibilidade de saberem onde estamos, o que fazemos e com quem fazemos. O risco da nossa vivência social, aumentou exponencialmente. A tudo isto, veio juntar-se o terrorismo.

Os perigos são pois enormes e ameaça está muito presente, principalmente no espaço europeu. O medo e o pânico tomaram parte das nossas vidas. E caímos num paradoxo; não queremos perder a nossa liberdade e a nossa forma de vida, sendo que em paralelo, passamos a exigir segurança absoluta. Dois erros. O primeiro é que não existe mais segurança com a mesma liberdade. Sempre que aumenta a segurança, isso significa que os direitos, liberdades e garantias de uma dada sociedade têm obrigatoriamente de ser comprimidos. Pagamos o preço de mais segurança, com a perda de alguns direitos. Quem disser o contrário, mente. O segundo erro, é que não existe segurança absoluta. O risco está sempre presente. Pode-se diminuir esse risco, mas não eliminá-lo completamente.

Tudo isto para comentar o que se passou recentemente no aeroporto de Lisboa. Sabemos hoje, que cinco homens embarcaram em Argel, capital da Argélia, num voo TAP, operado por uma outra companhia, com destino a Cabo Verde, com trânsito em Lisboa. A primeira dúvida se houvesse uma análise de risco relativamente aos passageiros de um determinado voo, era a seguinte; o que vão fazer cinco indivíduos com idades entre os 20 e os 23 anos, a Cabo Verde. Como sabemos, férias na praia não é um dos passatempos preferidos dos muçulmanos em geral e dos argelinos em particular. Mas ninguém colocou essa questão.

O voo aterrou em Lisboa, tendo os passageiros sido conduzidos até à zona de desembarque, para ser feita a triagem dos que ficavam em Lisboa e dos que estavam em trânsito para outros destinos. Foi aí, que forçando uma porta de emergência, quatro destes indivíduos se colocaram em fuga, em direção à pista, atravessando-a mesmo. Dada a emergência, a PSP entrou rapidamente em ação e em 34 minutos, conseguiu resolver o problema. Mas 34 minutos no aeroporto de Lisboa é uma eternidade, e mais de uma dezena de voos tiveram de ser desviados para Faro e para o Porto.

E foram 34 minutos, porque os fugitivos abandonaram os seus pertences, desfazendo-se inclusive dos seus documentos, passaportes incluídos, o que obrigou as autoridades a andarem à procura dos ditos pertences. E porque será que aqueles indivíduos se desfizeram dos seus documentos? Por uma única razão. Porque se estivessem indocumentados, podem pedir de forma imediata asilo. Tiveram pouca sorte e a Policia encontrou os seus documentos, mas isso não os impediu de entrarem com o pedido de asilo político em Portugal. Da mesma forma que o individuo que se Auto-mutilou com uma lâmina, fê-lo com uma intenção; sabia que se tivesse lesões, teria de ser conduzido a um hospital, de onde é muito mais fácil fugir que de um centro de detenção. Isto prova que eles sabiam ao que vinham e como proceder. Nada foi feito ao acaso. Mas uma pista de um importante aeroporto europeu, encerrada 34 minutos, é muito tempo.

E isso fez cair o Carmo e a Trindade. Falha terrível de segurança, e eminência de atentado terrorista. Rapidamente as autoridades vieram esclarecer que estávamos perante um caso de emigração ilegal, e que nada tinha a ver com terrorismo.

Não subscrevo nenhuma destas teorias.

É verdade que houve uma falha de segurança. É pois necessário estar mais atento, mas o que se passou já ocorreu outras vezes, não foi por isso nada de novo, e atrevo-me a dizer que vai obrigatoriamente voltar a acontecer. Vejamos, relativamente a esta questão, de passageiros em fuga na zona das pistas, só existe uma possibilidade de eliminar quase totalmente o risco, que é o desembarque ser feito nas mangas, uma vez que os passageiros saem do avião diretamente para o interior do aeroporto. Mas isto nem sempre é possível. E não é possível na quase totalidade dos aeroportos nacionais e mesmo internacionais. Frise-se que existem aeroportos em Portugal e no estrangeiro que pura e simplesmente não têm mangas. Na maioria dos aeroportos internacionais e devido ao enorme número de aviões que operam diariamente, não existem mangas suficientes para todos esses voos, sendo que os novos aviões, os maiores, em muitos casos, não conseguem devido à sua envergadura chegar às mangas.

E este problema passa-se tanto no desembarque, como no embarque. Não tem relevância no embarque, apenas porque nunca nenhum passageiro fugiu nessa situação. E é nos voos que ficam nas denominadas "placas", onde os passageiros deixam o avião sendo conduzidos para um autocarro que os leva atá à zona de desembarque, isto quando não têm de fazer esse trajeto a pé, que se dão a maioria destas fugas, normalmente associadas a emigração ilegal, de pessoas que querem entrar no espaço europeu e não dispõe do visto exigido para o efeito.

Outros, já na zona de desembarque, forçam as portas de segurança, as quais abrem, como devem abrir numa situação de emergência e fogem. Como resolver o assunto? As portas de emergência, é fácil; segurança humana em cada uma. Mas as outras situações são muito difíceis de resolver, pois mesmo com o autocarro em andamento, um qualquer passageiro pode acionar o sinal de alarme, o que faz imobilizar a viatura e abrir as portas e o dito passageiro pode colocar-se em fuga.

Não podemos pois entrar em transe ou numa espiral de loucura à procura do erro e da falha, devendo antes ter a noção que temos de aprender com estas lições, limitar erros, estar com mais atenção, sabendo que é impossível eliminar totalmente todas estas situações.

Mas também é verdade, que todos sabemos as rotas e os voos em que estes casos normalmente acontecem, pelo que nesses voos, exige-se mais atenção e reforço da segurança. Não necessitamos da mesma segurança para todos os voos. É uma questão de planificação.

É pois criticável a forma alarmante como esta situação foi divulgada e tratada. Repito, tudo o que aconteceu em Lisboa, não é novo, já aconteceu antes, neste mesmo aeroporto e em muitos outros desta nossa Europa. A maioria destes emigrantes desesperados, vêm de países onde os aeroportos não têm vedações, pensando eles que se conseguirem fugir e atravessar a pista, entram no interior do país e nunca mais são localizados. Puro engano. Muitos são os que já fugiram, como estes quatro, mas nenhum conseguiu sair do aeroporto, tendo sido todos rapidamente capturados.

Mas também é verdade que a resposta política foi demasiado perentória. Percebo-a devido aos tempos que estamos a viver e à necessidade imperiosa de descansar os cidadãos, até pelo medo que lhes é diariamente incutido. Mas também aqui, não gosto de respostas exatas e perentórias. O que a investigação conseguiu apurar e de uma forma extremamente rápida, foi a identificação dos indivíduos e o seu passado criminal na Argélia e na Europa. Sobre as suas motivações para virem ou regressarem ao espaço europeu, sabemos o que eles disseram, ou seja, que o seu maior desejo é viver num determinado país europeu. Mas será que isso, e até de acordo com os dados que temos e com o que se passou recentemente, permite-nos dizer que eles não têm uma qualquer ligação ao terrorismo? Penso que é dar um passo grande demais.

O que sabemos, é que não lhes é conhecida nenhuma ligação ao terrorismo, que três deles têm um passado ligado ao crime, e que queriam entrar ilegitimamente na Europa. Isto é o que nós sabemos, e a investigação criminal assenta em factos.

Em resumo, sabemos que existiu um problema no aeroporto de Lisboa, problema esse rapidamente resolvido pelas forças e serviços de segurança, PSP, SEF e PJ, que estas contrariamente àquilo que dizem os profetas da desgraça, cooperaram umas com as outras e em pouco tempo resolveram o problema. Foram identificadas falhas de segurança que urge colmatar da melhor forma possível, sabendo que podemos reduzir o risco, mas nunca eliminá-lo completamente. E isso é muito bom. Porque se as forças e serviços de segurança estiverem cientes dos riscos que existem, e estão, têm obrigatoriamente de estar sempre muito atentas, como estavam, para que se algo acontecer, atuarem de forma rápida, com eficácia e eficiência, conforme fizeram.

E não concordo com os que classificaram a situação como um simulacro. Foi um problema operacional que ocorreu, como muitos outros que aconteceram antes, ao qual, as forças e serviços de segurança responderam com eficácia, como sempre responderam. E parece que muita gente fica incomodada com essa resposta.    

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