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Carlos Moedas

Brexit: e tudo o vento levou

Um dos momentos mais marcantes deste meu mandato foi o voto contra o acordo de saída do Reino Unido.

Carlos Moedas 18 de Janeiro de 2019 às 00:30
Nestes meus quatro anos em Bruxelas posso dizer que nunca esquecerei quatro momentos que infelizmente ficarão para a história. Dois deles foram os atentados terroristas a 22 de Março de 2016 em Bruxelas e a 11 de Dezembro de 2018 em Estrasburgo. No primeiro estava no meu gabinete a escassos metros da estação de metro. No segundo estava a trabalhar no Parlamento Europeu, onde fiquei retido pela noite dentro com angústia e tristeza.

Mas hoje queria deixar-vos um apontamento sobre outros dois momentos que não esquecerei e que mudarão a Europa para sempre. Senti em cada um deles que se abalavam os alicerces da construção europeia e as perspetivas de cooperação entre os povos. O terceiro momento foi a manhã de 24 de Junho de 2016, quando os cidadãos do Reino Unido votaram a saída da UE. Era a primeira vez que um país decidia abandonar o projeto europeu.

Foi uma manhã de desespero mas ainda de alguma esperança. A partir desse dia, investimos durante dois anos numa negociação sobre a melhor maneira de nos separarmos, em que tanto os líderes dos vários países como os representantes da UE queriam o melhor para os dois lados. Porque esta negociação de certa forma era diferente das outras: ou ganhavam os dois lados, ou ambos perdiam. Não havia um cenário que combinasse vencedores e vencidos.

E por isso o quarto momento mais marcante destes meu mandato foi o voto contra o acordo de saída esta terça-feira à noite. Primeiro, porque de certa forma a ideia que passou no Reino Unido foi que os outros 27 países fabricaram um acordo que era negativo para o Reino Unido. Nada poderia estar mais longe da verdade. Os 27 sabiam que nada seria pior do que não chegar a acordo e por isso foram até ao limite do que podiam aceitar. Mais do que o que foi acordado só seria possível se o Reino Unido decidisse não sair.

Na noite de terça-feira pensei sobretudo nas pessoas que vão ter que viver com a incerteza face ao futuro no seu dia a dia. Porque nada é pior do que a incerteza. No fundo, senti que é em momentos como estes que as pessoas se afastam da política, porque os interesses políticos não refletem o interesse dos povos. Mas como diz Scarlett O’Hara na última frase do filme ‘E tudo o vento levou’: ‘After all, tomorrow is another day’.

Dor em Romeno
Na semana passada estive em Bucareste na abertura das comemorações da presidência romena da UE, país que preside pela primeira vez aos destinos da UE.
No final da cerimónia, já passava da meia-noite, um grupo de jovens acenava bandeiras europeias na cidade coberta de neve.

Guardarei para sempre esta imagem de um povo extraordinário.

No filme oficial da presidência romena, uma jovem falava de uma palavra de três letras que só existe na Roménia: a palavra "dor". Onde é que eu já ouvi isto? Pensei eu.

O meu pai sempre me contava (assim como todos os outros pais) que em Portugal existe uma palavra única no mundo que é saudade. Quando cheguei a França em 1993, repetia esta história a todos os meus amigos franceses até não aguentarem mais.

O meu colega romeno descreveu-me o sentido dessa palavra como uma dor nostálgica quando alguém parte. No fundo, estava a descrever-me saudade.

Neste momento muitos pais romenos estarão a contar a história da palavra "dor", assim como muitos pais portugueses estão a contar a história da palavra saudade.

No fundo, a "dor" deles é a nossa "saudade". Somos todos europeus, com os mesmos valores e é mais aquilo que nos une do que nos separa.

Elisabete Jacinto: a mulher todo-o-terreno
Primeira mulher a vencer a prova de todo-o-terreno África Eco Race, a piloto portuguesa de camiões vê nesta vitória a consagração de 16 anos de árduo trabalho. Uma resposta indirecta à ministra brasileira que defende o azul para os meninos e o rosa para as meninas.

Adamowicz: morrer por ideais políticos 
Faleceu Pawel Adamowicz, presidente da Câmara de Gdansk, símbolo da primavera democrática na Polónia. Foi vítima de facadas de um jovem desequilibrado. Era defensor dos homossexuais e refugiados, contra a linha do governo.

Custa acreditar que hoje na Europa ainda se pode morrer por ideias políticas.

14,2%
...dos reformados e pensionistas na UE estão no limiar da pobreza, o que tem aumentado desde 2013. Os extremos são os 3 países bálticos, com cerca de 40%, e a França é o mais baixo, com 7%.

Portugal está acima da média, com 15,5% em 2017. Reino Unido, Alemanha ou Suécia têm valores superiores a Portugal.n
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