Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
9
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Carlos Moedas

Não à política do inimigo fácil

É sempre mais fácil culpar um inimigo lá em Bruxelas do que os seus parceiros pela sua própria incapacidade.

Carlos Moedas 16 de Novembro de 2018 às 00:30
O [nosso] programa é incompatível com o Tratado Orçamental"; "o Eurogrupo e a Comissão Europeia têm um programa político [que impede os aumentos de salários]"; "a urgência é derrotar o Tratado Orçamental". "Quando os tratados atacam o povo, é preciso mudar os tratados".

Quem disse? Terá sido o ministro italiano Salvini que também culpou Bruxelas pela queda da ponte de Génova? Terá sido o primeiro ministro húngaro Orbán, que acha que a "elite de Bruxelas" não o deixa proteger as suas fronteiras? Não. Foram apenas algumas das frases proferidas por altos dirigentes do Bloco de Esquerda no seu recente congresso. O Bloco tem, naturalmente, todo o direito a estar contra a UE, no seu todo ou em parte. O que me inquieta, como cidadão, convicto europeísta e participante neste projeto europeu, é a forma como o Bloco trata a UE como inimigo ideológico e bode expiatório. É uma estratégia de facilidade que tem três caraterísticas: A preguiça, a manha e o perigo.

Preguiça, porque é sempre mais fácil culpar um "inimigo" lá em Bruxelas do que os seus parceiros pela incapacidade de levar a bom porto a sua própria agenda política.

Manha, porque é uma forma de justificarem os vários sapos que têm engolido, nomeadamente a aprovação de orçamentos que contradizem tudo o que politicamente têm defendido.

Perigo, porque quando se usa a "retórica do inimigo", acaba por se incitar posturas conspirativas do "nós contra eles", dando a ideia que há um inimigo lá em Bruxelas a trabalhar contra os interesses dos trabalhadores portugueses.

O mesmo se pode dizer em relação ao PCP que, recorde-se, foi das poucas forças que rejeitou a abertura de um processo de análise às violações do Estado Direito na Hungria. Fizeram-no por achar que este processo era um pretexto para que "a União Europeia tente abrir caminho ao incremento das suas chantagens, imposições e sanções contra os Estados e os seus povos". Esta linguagem deveria ser evitada no discurso político. Tratar como "chantagem" a aplicação de regras livremente aceites pelos Países que pertencem à União Europeia é, lá está, retratar os tais de Bruxelas como atores de uma cabala contra os portugueses.

Infelizmente, este tipo de discurso tenderá a piorar nos próximos meses, devido ao aproximar das eleições europeias e legislativas. Fica aqui o apelo a estes políticos que, repito, têm todo o direito a ser contra a UE, mas que contribuiriam para um debate político construtivo se evitassem esta "retórica do inimigo".

Bastidores
Recordar a Guerra e a Paz
Este mês de novembro tem sido fértil em celebrações e discursos evocativos da história da Europa no século XX. No dia 11 comemorámos os 100 anos do armistício da Primeira Guerra Mundial; no dia 9 os 80 anos da noite de cristal e os 29 anos da queda do muro de Berlim.

Ouvimos o Presidente Macron, a Chanceler Merkel, António Guterres e tantos outros avisarem contra a atual vaga de nacionalismos na Europa, e de como este projeto de paz que é a União Europeia não pode ser dado como adquirido. Vimos a fotografia de Merkel e Macron de mão dada. Vimos uma senhora de 101 anos a chorar quando viu o presidente e a chanceler de mão dada. Mas, infelizmente, temo que o espetro da guerra já não assuste os mais jovens. Os europeus que já nasceram em países pacíficos tendem a considerar irreversíveis realidades como poder circular pela Europa sem passaporte. Foi na Jugoslávia que se acendeu o rastilho da Primeira Guerra Mundial.

A guerra da Jugoslávia terminou há duas décadas. Hoje, a Eslovénia e a Croácia já pertencem à UE, e os restantes estão a caminho. As populações destes países lembram- -se bem aonde levam os nacionalismos – e por isso escolheram a Europa. Como dizia Mitterrand: "O nacionalismo é a guerra".

Grécia: separação entre Estado e igreja
O primeiro ministro Tsi-pras alcançou um acordo histórico com a igreja ortodoxa grega, mais uma etapa na separação de poderes e neutralidade religiosa do Estado grego. Os 10 mil membros de clero já não serão funcionários públicos e os bens da igreja serão agora sujeitos a impostos.

Facebook teme parlamentos 
Mark Zuckerberg recusou comparecer perante uma reunião conjunta de vários parlamentos para dar explicações acerca das campanhas de desinformação e ingerências eleitorais no Facebook. Se quem não deve não teme, esta recusa alimenta mais especulação em véspera de eleições importantes.

25%
é o aumento da procura de energia até 2040, de acordo com a Agência Internacional de Energia. Este aumento tem origem na Ásia, especialmente na Índia, que deverá ultrapassar os EUA e a UE em 2025 como o principal consumidor. Apesar dos progressos das renováveis, os combustíveis fósseis crescem.

Uma Europa que...
acompanha com grande preocu-pação a falta de progressos e até retrocessos da Roménia na reforma judicial e na luta contra a corrupção. A Comissão fez recomendações con-cretas ao governo ro-meno para remediar a situação no interes-se dos seus cidadãos, do próprio país e da UE no seu conjunto.
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)