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Eduardo Cabrita

A Arma do Povo

Antes de Abril, as mulheres ou os analfabetos não tinham capacidade eleitoral.

Eduardo Cabrita 25 de Abril de 2015 às 00:30
Hoje é dia de celebrar Abril, quando Portugal recuperou a liberdade, apostou na dignidade humana e deixou de ser um Estado pária ostracizado pela comunidade internacional.

O milagre da revolução portuguesa, feita quase sem derramar sangue e encerrando um ciclo colonial de cinco séculos sem os traumas que estão na génese da extrema-direita francesa, culminou com a grandeza dos capitães de não usar as armas para agarrar o poder mas sim para o devolver ao povo. Logo, provisoriamente a uma pluralidade de civis de vários matizes políticos, e ao fim de um ano na festa da democracia que foi a eleição para a Assembleia Constituinte.

Hoje, é difícil imaginar a emoção dessas eleições em que para a maioria dos portugueses foi a primeira vez que votaram. Antes de Abril, as mulheres ou os analfabetos (então cerca de 30% da população adulta) não tinham capacidade eleitoral. Mas mesmo para a escassa minoria recenseada em cinco décadas as únicas eleições disputadas foram a fraude monumental contra Humberto Delgado em 1958 e as eleições legislativas de 1969, que destruíram as ilusões sobre a abertura marcelista.

O gonçalvismo e o troikismo, na sua confluência de vanguardismos iluminados que dispensam os riscos de uma vontade popular potencialmente pouco esclarecida ou irresponsável, foram em 40 anos os maiores atentados ao espírito democrático da soberania popular. Têm em comum uma vocação de pensamento único segundo o qual a expressão popular pelo voto não constitui uma alternativa à inevitabilidade da dinâmica da revolução ou à ditadura dos mercados.

Em 25 de Abril de 1975, contra todos os que primeiro tentaram adiar as eleições para a Assembleia Constituinte e que a seguir tentaram desvalorizá-las contrapondo à legitimidade democrática uma alegada legitimidade revolucionária de que alguns se arvoravam arautos, os portugueses acorreram em massa às urnas e consolidaram uma transição democrática que serviu de referência a tantas vagas democráticas da América Latina ao Leste europeu e recentemente à vizinha Tunísia.

Esta semana, o PS com o quadro macroeconómico demoliu a ideia dos interesses instalados de que as eleições de pouco servem por falta de alternativa à austeridade. Em 2015, o voto vai ser de novo a arma do povo.
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