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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cabrita

Aniki-Bobó

Em tempo de hipocrisia, seria devastadora uma sondagem sobre quantos viram os seus filmes.

Eduardo Cabrita 4 de Abril de 2015 às 00:30

Oliveira deixou-nos com a sensação de eternidade de quem esteve sempre nas nossas vidas. Deve estar irónico a mirar do além o coro unanimista de loas póstumas e a multidão a prestar respeitoso preito muito superior às audiências dos últimos filmes.


Do rigor de ‘Francisca’ ou de ‘Vale Abraão’ até ao encanto pós-centenário das ‘Singularidades de uma Rapariga Loura’ há todo um percurso que foi escapando ao mainstream distraído pela imbecilidade dos programas tipo ‘Casa dos Segredos’.

Entre os demónios de Alcácer-Quibir que dominam ‘Non, ou a Vã Glória de Mandar’, perpassa uma desencantada reflexão sobre o mito do poder tão sedutor quanto efémero e volátil que deveria ser obrigatória para os aprendizes de feiticeiro que pululam na política nacional excitados por polémicas sem rasgo, visão ou memória.

Mas também para os vendedores de sonhos que oscilam entre a aspiração de um salvador sem mácula em nova versão da redenção sidonista e mito sebastianista do regresso de um passado tão glorioso quanto distante e intangível.

Mas nestes tempos de desprezo pelo valor do trabalho, tão desqualificado pelos bajuladores dos mercados, talvez valha a pena voltar a ‘Douro, Faina Fluvial’, filme iniciático do menino da Foz nos mistérios do celuloide. Mas para quem diz que Oliveira lhe provoca o bocejo, devia ser obrigatório ver o maravilhoso Porto infantil de ‘Aniki-Bóbó’, precursor de ‘Ladrões de Bicicletas’ e do melhor do neorrealismo italiano.

Em tempo de Páscoa, deveríamos mergulhar no recolhimento das tradições perdidas do ‘Acto da Primavera’ ou ousar a blasfémia sacra de ‘Benilde ou a Virgem Mãe’.

Manoel de Oliveira disse há pouco tempo que receava ser mais admirado pela longevidade do que pela sua arte. Em tempo de hipocrisia, seria devastadora uma sondagem sobre quantos viram um dos seus filmes nos últimos anos ou sentiram neles a vertigem mágica da beleza eterna.

A notícia de que o mais antigo realizador mundial interrompeu a sua viagem de jovem veloz sempre em demanda da terra dos sonhos chegou-me em peregrinação pela cidade de Maquiavel e Dante, o que talvez justifique a desencantada agrura deste embevecido epitáfio. Vou mergulhar nas vielas em que se cruzaram artistas, filósofos e seus patronos enquanto prometo rever ‘A Divina Comédia’ do mestre.

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