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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cabrita

Pobre e distraído

Declaração de Passos representa um mergulho no lodo da corrosão moral da democracia.

Eduardo Cabrita 7 de Março de 2015 às 00:30

Não vale a pena fazer processos de caça às bruxas como se os políticos devessem ser anjos impolutos que nunca atenderam uma chamada de telemóvel ao volante, exigiram sempre ao eletricista a emissão de fatura pela reparação doméstica e que nunca falharam um prazo de apresentação de declaração fiscal mesmo perante o bloqueio do sistema informático.

Tal bicho estranho não representaria os portugueses que se orgulhavam até há uns anos de saber sempre combinar como "enganar" o Estado, que se orientavam vivendo de biscates e que sorriam dos tansos fiscais.

Um efeito útil da selvajaria austeritária dos últimos anos é perceber-se que são os cortes nos recursos públicos que impedem de tratar a hepatite C ou que causam mortes inglórias nas horas de espera das urgências, que deixam escolas com as obras a meio ou estradas em construção interrompidas a caminho de nenhures.

Os últimos anos permitiram também perceber os pés de barro e telhados de vidro da nossa elite empresarial, dos Jardins Gonçalves aos Bavas, dos Espírito Santo e Oliveira e Costa aos patriotas que correram a transferir a sede fiscal das empresas para a Holanda. Mas se o desastre social dos últimos anos levará anos a sarar feridas, os ativos estratégicos nacionais, da energia aos transportes, estão a ser delapidados e o setor financeiro passará quase integralmente para capital estrangeiro, esperava-se dos defensores do Estado mínimo uma pose institucional que salvaguardasse o decoro formal dos poderes públicos.

Não discuto a honorabilidade pessoal de Passos Coelho, nem a um natural do Barreiro lembraria questionar a opção por viver em Massamá. Mas os portugueses ficaram siderados, depois do choque que foi perceber que somos governados por alguém que acha que a Segurança Social é financiada com base em contribuições voluntárias, que para Passos Coelho as obrigações fiscais são cumpridas no prazo permitido pela distração e pelo saldo de tesouraria.

Quando fecham empresas viáveis, são despejados desempregados com dívidas ridículas e o fisco assalta os cidadãos por conta das concessionárias de autoestradas, a declaração de Passos representa um mergulho no lodo da corrosão moral da democracia. Não é matéria de opinião… não voltará a ser levado a sério.  

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