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Eduardo Cintra Torres

Aldeia mais portuguesa de Salazar

As aldeias mais portuguesas de Portugal em 2017 são as aldeias vitimadas pelos incêndios.

Eduardo Cintra Torres 30 de Julho de 2017 às 00:30
Salazar descreveu o "seu" Portugal em 1934 falando no "anseio" que lhe chegava "do Norte ao Sul, pelos montes, pelas encostas suaves, pelos vales mimosos, nas pequenas circunscrições". Não mencionou as cidades, inimigas na sua ideologia dum Portugal ruralista de pobres mas honrados.

Concretizando a ideologia do "verdadeiro e genuíno" Portugal emanando a energia e a pureza do nacionalismo, o Secretariado Nacional de Propaganda (SPN) organizou em 1938 o concurso ‘A Aldeia Mais Portuguesa de Portugal’, iniciativa que marcou profundamente o imaginário nacional — até hoje.

Está na RTP: ‘As Sete Maravilhas de Portugal - Aldeias’. Depois de fazer "eleger" Salazar como "o maior português de sempre", a RTP é a casa certa para este renascimento da propaganda salazarista.

De 1938 para 2017, o concurso alargou-se de 22 a 49 aldeias; inclui agora as ilhas; criou secções (rurais, autênticas, remotas, ribeirinhas, de mar, monumento, em áreas protegidas). Só três coincidem nos dois concursos: Monsanto, vencedora em 1938, Manhouce e Alte. A recuperação de 1938 é assumida e as secções revelam a continuidade ideológica: o conceito de aldeia "autêntica", por exemplo, tem o mesmo significado de "mais portuguesa".

Oito décadas depois, a propaganda do SPN materializando a idealização do campo, que já vinha das elites desde o século XIX, renasce num formato audiovisual, estatal e comercial. O concurso vem duma empresa mundial, com representação portuguesa, que fez da antiquíssima lista das "sete maravilhas do mundo" o seu negócio cultural. Por cá, associam-se-lhe estruturas do Estado, que vêem no concurso potencial de turismo e propaganda.

Ao tradicional, belo e pitoresco, ao fundo ideológico persistente, o concurso de 2017 junta a ideologia estatal e nacional do nosso tempo: o turismo como salvação da pátria. Está nas secções de aldeias ribeirinhas e de mar: os turistas gostam de banhos. Em 1938, só havia uma à beira-mar, Odeceixe, que não chegou a finalista.

É assim o Verão de 2017, o de maior área ardida em dez anos no Portugal das aldeias. Enquanto arde o Portugal das aldeias, a TV do Estado glorifica a "tradição" e o "potencial" das aldeias "mais portuguesas de Portugal". Na verdade, as aldeias mais portuguesas de Portugal em 2017 são as aldeias vitimadas pelos incêndios, com gente que morreu, casas ardidas, que ficaram sem hortas, pasto, gado, oficinas e floresta, esquecidas e abandonadas pelo mesmo Estado que promove o renascimento do concurso salazarista para entreter espectadores e turistas em escapadelas de fim-de-semana, como o toca-e-foge do programa da RTP.

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A ver vamos: SIC - Portugal em voo de pássaro, ou drone 
A RTP não está só na visita ao país antigo e bonito. A SIC também mostra este Verão, na secção ‘Visão de Portugal’ do ‘Jornal da Noite’, aldeias e outros locais maravilhosos de Portugal. Belos movimentos em câmara lenta sobrevoam belezas naturais e construídas, antigas. Algumas aldeias coincidem com as do concurso da RTP, como Monsanto e Piódão.

São visitas de drone, à distância. Toca-e- -foge, como nas ‘Aldeias’ da RTP. Mas, em vez dos lençóis audiovisuais de duas horas na RTP, estas visitas aéreas têm menos de um minuto; e, em vez dos discursos bacocos, bafientos e fofinhos dos Malatos e Furtados, há apenas, uf!, música zen de lobby de hotel e legendas factuais; ao contrário do concurso da RTP, que provoca prurido na pele, dores de ouvidos e paralisia cerebral, sem tratamento possível, as cápsulas audiovisuais da SIC são agradáveis e bonitas. Eis aldeias e sítios idílicos e sem incêndios, para citadinos visitarem: vamos, antes que ardam!

Já agora: Mudou Marcelo os afectos pelo Governo?
Depois de aldrabado e desautorizado em Pedrógão e Tancos, o Presidente da República embatucou.

Poderia voltar ao amor pelo governo? Em entrevista, elogiou a liberdade de imprensa atacada pelo governo e criticou não só a "maximização" dos incêndios pela oposição como a "minimização" pelo governo. Se insistisse no amor cego, desaparecia.
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