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Eduardo Cintra Torres

Canto da sereia para deputados

Os media relevaram a ‘esperança’ de Gonçalo Reis, que é nada, é verbo de encher, como o de Feijó.

Eduardo Cintra Torres 9 de Julho de 2017 às 00:30
Quem ouvisse há dias no parlamento os dois presidentes da RTP — sim, são dois —, concluiria que vivemos no melhor dos mundos. António Feijó, presidente do Conselho Geral Independente (CGI), disse maravilhas da Administração e do Governo, que ele acha que não interfere ‘a um nível maior’ na informação. Não sei o que ele chama à ‘sugestão’ do governo para lá meter dois membros amigos e desnecessários na Direcção de Informação. Nem sei o que ele pensa da informação a um ‘nível menor’, isto é, as notícias e seu alinhamento, que é o que interessa.

Já o presidente da Administração disse ter ‘esperança’ de que no fim do ano o governo passe a entregar mais cedo as massas da taxa. Os media relevaram a ‘esperança’ de Gonçalo Reis, que é nada, é verbo de encher, como o de Feijó.

Quem receia falar da realidade refugia-se no futuro e nos ‘níveis maiores’. Esse medo vê-se no seu Relatório de Cumprimento de obrigações, sobre 2016, que omite ou ilude imensos factos para nos enganar — e à tutela. Não sei se a comissão parlamentar se deixou enganar com as generalidades de ambos, que não resistem à análise factual. Não sei se teve em conta que ambos falavam na expectativa da renovação dos seus mandatos, quer no CGI, quer na Administração. Quem lá falou foram dois presidentes que querem voltar a ser presidentes.

O escrutínio da RTP, como de tantos serviços públicos, tem sido por norma deficiente. O facto de ser o próprio Estado a fazê-lo inquina-o à partida. O Parlamento, um dos principais beneficiários práticos da programação da RTP, é displicente, fecha os olhos, entra no jogo ilusionista da retórica a ‘um nível maior’ e com ‘esperança’. Esse jogo de palavras notou- -se também quando Reis discordou do Conselho de Opinião (CO) sobre o facto de o órgão considerar que a RTP não esgotou as opções legais das receitas comerciais. Isso é "voltar a colocar a RTP numa lógica comercial", disse Reis. Não é. Reis misturou alhos com bugalhos.

De facto, o CO sublinhou que a RTP só conseguiu fazer 47% das receitas publicitárias possíveis nos seus seis minutos legais. Não misturou esse falhanço da administração da RTP e suas direcções com ‘lógica comercial’ nem o confundiu com obrigações de serviço público. A declaração é tanto mais cínica quanto a RTP vive em lógica comercial desde 1957 e, para compensar os seus fracassos, a Administração anda a implorar ao governo que aumente a taxa que pagamos.

O que lhes importa que a RTP continue a perder relevância, audiência e que a sua única aposta, em séries, seja um fracasso estético? Nada. Basicamente, o que pretendem é renovar mandatos.

A ver vamos 
Pessimista, sim   
Henrique Medina Carreira (1931-2017)
Quis o destino que Henrique Medina Carreira (1931-2017) morresse quando o optimismo postiço do actual poder governativo, presidencial e mediático era desabado pela realidade da falência do Estado em Pedrógão Grande e Tancos.

Medina Carreira era o pessimista no espaço público mais conhecido do país. Pessimista não quer dizer destrutivo, mas antes um ser pensante que não verga às modas propagandísticas do dia. Enquanto crítico, em especial na TVI, ele questionava apoiado em factos da nossa vida colectiva, não no blá-blá que ocupa demasiados comentadores.

Desmontava números, fundamentava opiniões. Era um pessimista intelectual; via que a espuma dos dias esconde as mesmas tendências negativas de sempre na condução do Estado e na sua trágica aceitação suicida por nós todos.
Para citar Cioran, outro pessimista já falecido, tinha "o dever da lucidez: alcançar um desespero correcto, uma ferocidade olímpica". Precisamos de mais pessimistas.

Já agora
Marcelo com governo: que independência?
Apesar de parecer o contrário, Marcelo, de Pedrógão a Tancos, faz o que pode para proteger o governo. A visita a Tancos foi ridícula e vexatória. Nestas semanas, os cidadãos viram de repente um governo à deriva e vivendo da propaganda e não puderam confiar na independência do presidente face ao poder executivo. Até ver, tornou-se acessório.
Eduardo Cintra Torres opinião
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