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Eduardo Cintra Torres

Especulação financeira

As audições no parlamento sobre BES, GES e PT são um filme de terror.

Eduardo Cintra Torres 8 de Março de 2015 às 00:30

As audições no parlamento sobre BES, GES e PT são um filme de terror que passa pela TV. A miséria humana que ali se espraia seria nota de rodapé da História se não houvesse tantos a sofrer com a ganância da especulação e da aldrabice pessoal e institucional.

As poupanças de muitos lesados pelo GES-BES foram roubadas, pois o BES vendeu gato por lebre. Houve uma falta de ética que precisa de ser reparada. Quem não conhece casos de clientes do BES que foram assediados para trocarem aplicações seguras por lixo financeiro do GES sem os informarem das diferenças radicais, financeiras e legais, entre BES e GES? As ocupações de agências do BES por lesados em todo o país, que prometem continuar – nas ruas e nos ecrãs – são por isso uma forma de expressão da sociedade civil que é bem menos "ilegal" do que as gigantescas ilegalidades praticadas por responsáveis e empregados do BES.

Também na aldrabice a História se repete. No final do século XIX, políticos, industriais e financeiros franceses em total promiscuidade arruinaram 85 mil accionistas no famoso escândalo das obras do canal do Panamá. Para conseguir o dinheiro, a empresa comprou jornalistas e envolveu políticos. O jornalista que denunciou o caso foi preso, mas continuou informando da cela. Também houve uma comissão de inquérito…

Terminou o caso em 1893 com várias demissões, um suicídio, processos por corrupção a deputados e outros responsáveis, julgamentos e a prisão dum antigo ministro. Parte da imprensa saiu desacreditada, por ter colaborado com a aldrabice. Há muitos livros sobre o caso. Zola escreveu a versão romanceada em ‘O Dinheiro’.

Os Estados foram criando processos legais e de regulação para minorar a aldrabice financeira, mas a partir de Reagan e Clinton a desregulação dos mercados permitiu a especulação desenfreada (tão bem romanceada por Tom Wolfe em ‘Fogueira das Vaidades’), que desembocou nos escândalos do nosso século, como Madoff, Lehman Brothers, BPN e BES.

A regulação e os freios à especulação financeira são hoje mais necessários que nunca pela razão simples de que a banca se tornou um serviço sem o qual ninguém pode viver. Os bancos são um serviço fundamental, universal, quase sempre obrigatório para os cidadãos. Têm um perfil de serviço público, pelo que precisam de um controle apertado desnecessário noutros negócios. Enquanto os Estados não assumirem essa supervisão mais forte dum negócio que, sendo privado, é público, assistiremos a novos episódios destas tragédias que nos enchem os ecrãs.

Serviço público uma vez por ano

A RTP 1 apresentou em horário nobre uma entrevista ao presidente da Síria, Bashar al-Assad. Foi uma excelente entrevista, por Paulo Dentinho, jornalista informado, bem preparado e independente, que não fez o servicinho a Assad, como por exemplo Márcia Rodrigues fez em tempos ao anterior presidente do Irão. Perguntas certas, actuais, directas e sem exibicionismo do entrevistador, como tantas vezes acontece (por exemplo umas entrevistas intimistas sem sentido de José Alberto Carvalho na TVI24). Triste é que se tenha de assinalar o "feito" da RTP, porque esta iniciativa de Dentinho deveria ser a regra e não a excepção. Não há razão para festejos quando um bom trabalho só acontece quando o rei faz anos.

Autoritarismo à vista

António Costa confrontou inopinadamente uma jornalista da SIC, inventou que ela estava "atrás dum carro" e quebrou o acordo tácito entre políticos e media sobre recolha de declarações à entrada e saída de eventos. Aflorou a faceta autoritária que já revelara enquanto ministro de Sócrates e presidente da Câmara Municipal de Lisboa.

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