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Eduardo Cintra Torres

Mário Soares: primeiro a liberdade

Convivia com os media e sua eventual adversidade da mesma maneira que soube viver em minoria.

Eduardo Cintra Torres 8 de Janeiro de 2017 às 01:45
Por ironia da história, morreram no mesmo hospital os dois políticos mais marcantes do século XX português: Oliveira Salazar e Mário Soares. Adversários durante décadas, morreram ambos como heróis no seu tempo. Um, herói da ditadura, o outro, herói da democracia.

Receberam ambos o poder dos militares, e ambos os conseguiram pôr de volta nos quartéis. Ambos se sobrepuseram aos próprios regimes de que foram obreiros principais, através do carisma que a nenhum escapou até à morte, mesmo junto dos adversários.

Ambos foram deputados e chefes de governo e ambos foram chefes de Estado, um, Soares, sendo-o, o outro, Salazar, como se não fosse. Ambos tinham uma concepção de elite do regime, um em ditadura, o outro em democracia. Ambos, como carismáticos, mobilizaram emoções e multidões. Ambos perderam apoio popular nos seus últimos anos, mas ambos morreram como príncipes da política e como vencedores históricos.

E, todavia, separam-nos em absoluto a concepção de Portugal em si e no mundo: Salazar, defensor in extremis do colonialismo, avesso à Europa e inimigo das liberdades de expressão, de reunião e de associação; Soares, defensor in extremis de uma qualquer descolonização, europeísta que colocou Portugal na actual União Europeia e um extraordinário defensor das liberdades, para os outros e para si mesmo.

Pela defesa da liberdade, o regime de Salazar privou-o por diversas vezes da liberdade e empurrou-o para o exílio; as décadas de luta pela liberdade valeram-lhe a primazia do povo desde que o comboio o trouxe a Santa Apolónia; defendeu a liberdade contra o comunismo soviético e o extremismo, no parlamento, nas ruas, em S. Pedro de Alcântara, no Estádio 1º de Maio, na Alameda e na própria Avenida da Liberdade, lugares de combate onde o vi e ouvi.

A liberdade para si mesmo levou-o a tomar atitudes insensatas, como a candidatura ao Parlamento Europeu, a tentativa de regressar a Belém, em que o povo o castigou, e mais recentemente no apoio a José Sócrates. Mas, mesmo nesses e noutros casos, fazia-o no exercício da sua liberdade.

Enquanto mandou, procurou influenciar a imprensa e até promoveu um grupo de media, que falhou, mas não lhe conheço qualquer atitude de asfixia dos media ou de tentativa de calar jornalistas, de pressionar, de fechar jornais, de mandar comprar media com dinheiros públicos.

Pelo contrário, convivia com os media e sua eventual adversidade da mesma maneira que soube viver em minoria, quer em ditadura, quer em democracia. A sua tolerância, a sua luta e seu exercício da liberdade, a sua e a dos outros, são o seu primeiro legado para a História.

Estado despreza as regras do Estado
Como sabe o contribuinte, o Estado é o maior incumpridor das regras criadas pelo próprio Estado. Já aqui mencionei um relatório que o CGI da RTP encomendou porque a ERC do Estado não o fez em devido tempo. Outras novidades: o Estado, que é o principal accionista da RTP, ainda não aprovou o Plano de Actividades da RTP… para o ano passado; o destino do Arquivo da RTP, vendido em 2011 pela RTP do Estado ao Estado propriamente dito, ainda não está resolvido; a RTP colocou dois canais na TDT sem ter à data o preço fixado nem o revelar até hoje; o Estado não incluiu durante anos a receita da CAV no Orçamento de Estado, apesar de o Tribunal Constitucional ter decidido em 1998 ser um imposto e não uma taxa; no Orçamento de 2015 o Governo omitiu 30 milhões de passivos financeiros da RTP; o Estado deveria pagar em 2016 à RTP uns milhões por subfinanciamento anterior a 2003 através de aumento de capital, mas não o fez; etc., etc. Tudo gente boa.

Estado deve impedir a censura no Facebook
O Facebook censurou uma foto da estátua de Neptuno numa praça italiana que há 500 anos exibe orgulhosamente a sua nudez. Considerou-a "explicitamente sexual". Idiota. O Facebook faz censura milhares de vezes, todos os dias, não a "fake news", mas ao exercício da liberdade. Portugal e UE deveriam obrigá-lo a respeitar a nossa legislação.
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