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Eduardo Cintra Torres

Na cama com D. João V

Série está bem feita, embora com erros de montagem e algum exagero inicial nos movimentos de câmara.

Eduardo Cintra Torres 23 de Julho de 2017 às 00:49
Os amores freiráticos de D. João V foram muitos e alguns longos, como o de Paula, irmã em Odivelas, mas, em termos históricos, não passam de episódios que noutras línguas se chamam anedóticos, pois não influíram na política do reinado como em tantos outros casos. A série "Madre Paula" (RTP 1) é por isso sobre sentimentos e amores de pessoas no século XVIII, não sobre uma época da História de Portugal, sobre acontecimentos marcantes que mudassem o devir do país.

Centrada nos amores, a ficção amaciou a personalidade de Paula. Em vez da mulher ríspida e até violenta que também foi, inventou uma feminista do século XXI que é levada para um convento do século XVIII, um anacronismo para atrair público.

No primeiro episódio, acabadinha de entrar à força no convento, Paula tem dúvidas metafísicas sobre a existência de Deus, grita pelos seus direitos de mulher — e aprende as artes orientais do sexo com o conde de Vimioso: toca de as pôr em prática e prometer lições às freiras da classe alta.

A série ordena livremente os acontecimentos para efeitos de narrativa dramática. Na realidade, Paula era freira há dois ou três anos em Odivelas quando começou o romance com o rei, mas na série vai tudo a mata-cavalos. No dia em que sai freira da igreja, toma lá!, está o rei à porta e dão o primeiro beijo apaixonado.

Para acrescentar gravidade ao fio principal da narrativa sobre sexo e amor entre freiras e aristocratas, a série cria uma narrativa paralela de alta política, em torno duma possível conspiração de Francisco, irmão do rei.

Está um pouco mal amanhada dramaturgicamente, mas sempre permite espreitar a complexa política interna e externa do tempo, tão barroca quanto o resto. Permite ver que D. João V era um patriota, não queria guerras na Europa, queria defender as colónias, e, como outros estadistas, tentou reformar alguma coisa no reino, sem resultados práticos.

Como todos os reis, tinha dois corpos, o simbólico, de rei, e o físico, de homem. E este era estouvado no que toca a freiras. Os conventos eram clausura para filhas sem dote ou de famílias empobrecidas, mas também eram espaços de liberdade para as mulheres. Era o sistema de então.

A série está bem feita, embora com erros de montagem e algum exagero inicial nos movimentos de câmara, que no cinema e TV servem hoje para animar a malta.

O argumento está bem escrito. A qualidade deve-se também aos actores, embora a protagonista, Joana Ribeiro, tenha tiques de telenovela.

Paulo Pires vai bem como D. João V, mas, aos 50 anos, tem idade para ser seu próprio pai, pois o rei estreou-se na alcova de Paula aí pelos 30.

Governo e ANPC contra o povo 
A lei da rolha do governo e sua Protecção Civil, proibindo os comandantes distritais no terreno de falar aos jornalistas e "concentrando" a informação em Carnaxide duas vezes ao dia, é uma censura prévia do tipo da do regime fascista. Mas é, antes disso, um desprezo absoluto pela população das zonas com incêndios.

Os comandantes distritais transmitiam aos jornalistas informação que eles passavam, tantas vezes em directo, à população, permitindo-lhe, caso fosse, proteger-se a si e aos seus bens. Os media locais e regionais ficaram privados de transmitir de imediato informação relevante para os cidadãos e até a informação cozinhada em Carnaxide, pois não poderão viajar de Bragança ou Faro para ouvir e questionar os resumos censurados e as mentiras, como a de que não houve falhanço do SIRESP em Gouveia.

O governo balança entre a propaganda e o controlo da informação. Neste caso, vêem-se os danos imediatos e práticos — à beira do crime.

Ó TVI, porta-te bem e a gente apoia o negócio 
António Costa confirmou o que escrevi. Passou recados à Altice, diz o Expresso: porte-se bem, não acabe com os fretes da TVI ao governo, mantenha a presidente e o director de Informação, dois socratinistas, e a gente já não se opõe à compra da Media Capital.

Isso, finjam que não fazem política, só negócios. Quando me entrevistam outra vez?
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