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Eduardo Cintra Torres

Novela? Sim. Policial. Investigue-se

EmPortugal, os apagões nas Finanças nunca beneficiam os pequenos contribuintes, só os grandes.

Eduardo Cintra Torres 5 de Março de 2017 às 00:30
Se o caso das transferências de 10 mil milhões para offshores é uma novela, então é uma novela policial. Como vamos no princípio, ainda não podemos perceber bem o enredo. Só os autores, mas esse escondem ou dizem o mínimo possível.

A ver se entendo. O Público recuperou uma notícia sua com um ano quando, por coincidência, dava jeito ao governo desviar as atenções da novela CGD. Mas havia informação, e valeu a pena. O jornalismo é assim: lá terá o seu contexto, mas o fundamental é que haja informação factual, para bem dos cidadãos.

O facto era que o ex-secretário de Estado das Finanças não ordenou, embora não tivesse de o fazer, a publicação das estatísticas daquelas transferências. Paulo Núncio assumiu, mas não explicou bem. Quando não se explica, quem ouve pensa: "aqui há gato".

Havia. Soube-se depois, graças ao jornalismo, que houve um apagão informático na Autoridade Tributária, instituição do Estado. Em Portugal, os apagões nas Finanças nunca beneficiam os pequenos contribuintes, só os grandes: esse apagão impediu o tratamento tributário daquelas transferências offshore. Depois, soube-se mais: a maioria das transferências foram para o Panamá, que, nos casos esquisitos, já é um destino tu-cá-tu-lá; e metade saíram do Grupo Espírito Santo; parte delas só foram notificadas pelo Novo Banco depois da resolução da casa bancária do ex-Dono Disto Tudo. Como diria Homer Simpson sobre tudo isto, "how convenient!".

O governo exultou com a primeira notícia, António Costa aproveitou para um dos seus números estalinistas no parlamento, mas, depois, vá-se lá saber porquê, o governo baixou a bola. Quando Carlos César, um Calígula do PS, diz que não vale a pena fazer uma Comissão de Inquérito é porque o PS não tem interesse na investigação. A relação do PS com o BES, no tempo do DDT, sempre foi como a do pão com a manteiga. Juntam bem e sabem melhor. E quando Calígula, aliás César, diz uma coisa qualquer, temos de nos habituar que o contrário é o que está certo para os cidadãos: deve haver Comissão de Inquérito.

Rocha Andrade, sucessor de Núncio, foi prudente e verdadeiro no parlamento. Fiquei logo a pensar bem dele e que deve haver ali qualquer coisa com que ele não quis comprometer a sua palavra. Mais uma razão para se investigar. Por agora tem sido a imprensa, honra a ela, que o tem feito. Que continue. Mas, como nas novelas policiais de Agatha Christie além do detective privado costuma haver polícia, é altura de o Ministério Público avançar. Todos sabemos há muito que em coisas financeiras que nos são escondidas os colarinhos brancos têm sempre sarro agarrado.

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A incontinência opinativa de Marcelo
Eanes discursava e o país político passava semanas a descodificar. Soares fez uma cena com um GNR e as imagens ainda passam na TV. Sampaio disse "há mais vida para além do orçamento" e o aviso ficou. Cavaco gaffejava e as gaffes andam por aí. Já Marcelo fala sobre coisas — passados minutos ninguém liga. Em menos dum ano, fez 750 intervenções.

Quinta-feira, o presidente excedeu em absoluto o mandato institucional. De manhã, disse que não estava a acompanhar a audição no parlamento do ex-secretário de Estado das Finanças. Mas, passados minutos, comentou uma frase de Núncio. Sem ter visto. Ainda durante a audição. Sem ter rigorosamente nada a ver com as suas funções. À tarde, comentou com acinte despropositado uma declaração lateral de Teodora Cardoso em entrevista. De novo, era um assunto que não tinha nada a ver com as funções do chefe de Estado. Marcelo que se cuide: quem fala demais não é ouvido; quem não respeita não se dá ao respeito.

Costa contra Costa: assalto ao Banco
António Costa queria, mas não pode, substituir Carlos Costa no Banco de Portugal (BP). Adoptou a táctica do desgaste. A bem informada reportagem "Assalto ao Castelo" (SIC) tornou mais clara a fraca supervisão do BP sobre o BES. Veio a calhar ao governo, que logo a usou como arma. A metáfora do título explica: o castelo é o BP. Há que assaltá-lo.
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