Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
7
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

Os Cúmplices Disto Tudo

O bando levou às últimas consequências a apropriação do estado para interesses particulares.

Eduardo Cintra Torres 15 de Outubro de 2017 às 00:30
Um tremor-de-terra abalou o país: a acusação pública a um ex-primeiro-ministro e a líderes do sistema económico-financeiro do país durante anos entre eles o Dono Disto Tudo, Ricardo Salgado, o DDT.

A acusação mostra a captura do Estado, governo e empresas por um bando mafioso de colarinho branco, que não precisa de pistolas porque está, é o poder.

Revela o roubo e a distribuição, entre mesquinhez e gigantismo principesco, de dinheiro roubado em última instância aos portugueses e às empresas envolvidas e até a destruição deliberada duma das maiores empresas nacionais, a PT, para servir a avidez do roubo.

O bando levou às últimas consequências a apropriação do Estado para interesses particulares — é isso "o sistema".

E a roubalheira, neste caso monstruosa, teve a complacência silenciosa dos primogénitos e dos bastardos do "sistema", incluindo PCP e BE. Já PSD e CDS, com algumas grandes personagens também envolvidas em apropriações "sistémicas", quase sempre com o DDT, andaram anos coçando-se em silêncio sobre o caso para que não viesse ao espaço público o dito comum "mas vocês também andaram a mamar".

Calhou, porém, que a Operação Marquês fosse a "Operação Rato", porque este assalto foi realizado pelo PS.

A conivência de líderes, militantes e governantes de ontem e alguns de hoje foi instrumental. Sabiam e calaram. Alguns sabiam e comeram também.

O PS, mais que os outros partidos do "sistema", do BE ao CDS, tornou-se o centro organizado dum assalto e controle do Estado por cleptocratas, o que nunca aconteceu com os outros partidos. Infelizmente, não se reformou. Nem fala do assunto.

Diz que sente "incómodo", mas só pelo dano de reputação. Não há arrependimento, assunção de responsabilidade, mudanças. O "sistema" quer sobreviver. Os cúmplices permanecem incólumes.

E, se sobrevivem no PS, os cúmplices estão também em grandes escritórios de advogados que fazem a gestão de danos do tremor-de-terra no komentariado, na RTP, SIC, TVI, em jornais.

Na TVI um ex-dirigente do PS que recebeu dinheiros de Sócrates comenta como se nada fosse. Nada lhe perguntam, porque os cúmplices estão também entre jornalistas, entre os "generais prussianos" que procuram esconder a "Operação Rato" nos media que dirigem ou empregam.

Andaram anos a glorificar Sócrates e a defendê-lo desde que a operação judicial se tornou pública em 2014.

O "sistema" é resiliente e continua a controlar parte dos media nacionais.

Há muitos Cúmplices Disto Tudo andando por aí gerindo danos, olhando para o lado e sacudindo a água do pesado capote.

A ver vamos
ERC
O "sistema" a funcionar fora da lei 
Seixas da Costa, indigitado pelo seu governo PS para o Conselho Geral Independente (CGI) da RTP, revelou que a Entidade Reguladora da Comunicação Social (ERC) não suscitou "de todo" a sua incompatibilidade no cargo por ser administrador de grandes empresas.

Tal como ele mesmo e o presidente da administração da RTP, Gonçalo Reis, a ERC só se pronunciou sobre a incompatibilidade de escrever nos media sendo do CGI, razão que serviu há anos para chumbar João Lopes. Tratou-se de atirar poeira para os olhos, pois a incompatibilidade real está nas funções em empresas anunciantes na RTP.

A ERC quis assim confundir o assunto. Na verdade, a sua decisão sobre Costa teria de ser unânime e não foi, o que equivale a um chumbo do nomeado. Terá de responder por isso, pois infringiu o seu regulamento.

Entretanto, Reis, como obediente soldado prussiano, já fez o elogio público de Costa, que, se chegar ao CGI, terá de avaliar o próprio Reis. Se tudo isto não é o "sistema" a funcionar…

Já agora
Presunção de inocência: só para os poderosos?
Figurões do komentariado invocam a todo o momento a presunção de inocência. Certo. É um princípio basilar do Estado de direito. Mas fazem-no apenas para defender os seus clientes ou patrões envolvidos em cambalachos, gente poderosa.

Nunca a invocam para os Palitos ou Pedro Dias, nem para os seus adversários políticos. Só quando convém.
Eduardo Cintra Torres opinião
Ver comentários