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Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Eduardo Cintra Torres

"Pegue no telefone com toda a fé"

Uma ironia: é um programa de “leitura” de cartas, mas a sic e a cartomante descartaram-se.

Eduardo Cintra Torres 5 de Junho de 2016 às 00:30
A cartomante Carla Duarte, da SIC, recomendou a uma mulher vítima de violência doméstica para continuar a deixar o marido bêbado dar-lhe porrada, aceitando-o com muito amor. Disse a mulher pelo telefone: "Há 40 anos que eu sou de ‘violação’ doméstica, como é que isso se diz." "Ele bate-me, ele faz-me tudo." A cartomante não pegou logo no assunto. "Já lá vamos", disse. Tinha assuntos mais importantes para tratar. Só depois lhe recomendou para aguentar a violência do marido: "Continue. (…) Não discuta, não procure conflitos." "Eu sei que não o faz, mas é preciso ainda mais. Você escolheu este homem e, por enquanto, independentemente de tudo, é com ele que vai ficar. (…) Mime-o! Por muito difícil que isso seja." A mulher respondeu que "é muito difícil" e que tem "de andar sempre a fazer as pazes". A cartomante aconselhou: "Pois tem, como se fosse a mãe. E continue, que é para isto não piorar. Assim não piora!" "Ele quer uma mãe, ele não quer uma mulher de si." "Você, ajude-o, nutra- o." "Você escolheu e continue em casa."

A total irresponsabilidade da cartomante tornou-se num escândalo da semana, levando a SIC a demarcar-se e a própria a pedir desculpa. Uma ironia: é um programa de "leitura" de cartas, mas a SIC e a cartomante descartaram-se.

Tirar as cartas atrai muita gente, por se "ler" o futuro, que é o maior segredo das nossas vidas. A "leitura" é facílima para as cartomantes, porque dizem o que lhes apetece. Neste caso, apareceu a carta da morte e a cartomante disse que não significava que houvesse morte. Qualquer carta permite muitas interpretações, bastando à cartomante ouvir o problema para inventar uma interpretação. Total contradição: é suposto ela ter feito a "leitura" certa das cartas, mas depois a SIC e ela mesma disseram que não.

Foi um caso extremo, mas o que a cartomante disse resulta também da lógica do programa. É um espaço comercial: a cartomante diz dezenas de vezes para as pessoas telefonarem, que é a fonte de receitas. Interrompe os diálogos, mesmo que o caso seja um cancro, para insistir: "Pegue no telefone com toda a fé."

Os diálogos com quem telefona são duma superficialidade indigente. Quem liga tem mesmo problemas, quem atende — em directo, em público — não os conhece verdadeiramente, não é psicólogo, quer despachar para passar ao seguinte, diz umas coisas. O que a cartomante disse à vítima de violência doméstica é a consequência da essência do programa: ganhar dinheiro num espaço televisivo comercial e de entretenimento, sem querer conhecer, resolver ou sequer levar a sério os problemas reais de seres humanos que sofrem.

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A ver vamos: Drama - O Ken foi preso em frente à Barbie! 
Outro "caso" da semana: a detenção de Olivier da Silva, "marido" de uma "relações-públicas", Cláudia Jacques, acusado de traficâncias várias. Note o leitor que neste artigo tenho de usar muitas aspas. O CM descobriu que não eram casados. Actores, "conhecidos" e "celebridades" fazem-no muito: fingem uma cerimónia de "casamento", que não chega a legalizar-se. Sabem que a relação será provavelmente precária; vivem numa sociedade que (ainda) valoriza o casamento; vivem pelos media e, na parte ou no todo, da divulgação da sua própria vida privada, mas não querem ser incomodados com esse detalhe privado: viverem juntos sem serem casados. Os que só têm a "profissão" de "conhecidos" chamam-se "relações-públicas", que é ganhar dinheiro a representar marcas por serem "conhecidos". Também este "caso" tem a sua ironia: a "relações-públicas" estava com o "marido" num "evento" a "representar" a Barbie quando ele foi ali mesmo detido. Adeus, Ken! 

Já agora: Linchadores linchados
Terceiro "caso" da semana: José Cid "desprezou" os transmontanos numa entrevista com seis anos. O entrevistador, Nuno Markl, que já acicatou no Facebook o linchamento de outros, queixa-se agora de ser linchado na mesma rede por se ter rido na altura do que Cid disse. Isto dos linchamentos virtuais é assim: nunca se sabe quem é o próximo.
Carla Duarte SIC questões sociais
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