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Eduardo Cintra Torres

Tubarões? De insulto a elogio

'Shark Tank' mostrou ideias débeis ou pouco originais, negócios mal preparados.

Eduardo Cintra Torres 29 de Março de 2015 às 00:30
O tempora! O mores!" Como o tempo passa e mudam os costumes. Há uns anos, chamar "tubarões" aos capitalistas era um insulto. Hoje, é um elogio: são os heróis de ‘Shark Tank’. Ei-los agora self-made men & women, o trono transferido para o ecrã, apoiando — e apropriando-se — dos pequenos negócios com que sonha quem ainda não fez o caminho das pedras até ao topo.

Que revolução não passou por este país sem darmos por isso! (As verdadeiras revoluções são subterrâneas, quando damos por elas já cá estão.) Uma revolução de mentalidades permite esta exibição pública de capitalistas sem gravata, linguagem comum e prontos a investir em meia dúzia de minutos em pequenos negócios; e permite esta exibição pública de gente comum, com ideias patetas ou promissoras, negociando o valor de patentes e das suas empresazinhas, sujeitando-se ao enxovalho em público em vez de se porem na fila da Caixa para pedir um subsídio.

Não é por acaso que os direitos da versão portuguesa de ‘Shark Tank’ foram comprados por António Carrapatoso, capitalista de sucesso e defensor do capitalismo liberal.

Sem ilusões, sabemos também que a revolução das mentalidades não é completa: Carrapatoso escreveu há semanas um artigo no próprio jornal de que é accionista e administrador, o ‘Observador’, um elogio a António Costa que mais parecia uma oferta de "colaboração" e abertura de negócios no âmbito do Estado caso o PS vença as próximas eleições. Sem ilusões, também, pois a primeira edição de ‘Shark Tank’ mostrou ideias débeis ou pouco originais, negócios mal preparados, e a mentalidade antiga, do empregozinho e do pagamento da Segurança Social como obsessões dos concorrentes.

O programa mostra ainda, da parte dos capitalistas (a que hoje se chama apenas "empresários"), uma preocupação menor do que nas versões americana ou canadiana com as contas que os concorrentes lhes apresentam. Pareciam mais interessados no espectáculo das suas intervenções do que no esclarecimento dos negócios que lhes apresentavam, pareciam menos interessados no negócio do que em dar uma lição televisiva de "empreendedorismo" aos portugueses. Essa falta de foco no cerne do programa poderá explicar a necessidade que a realização teve de fazer montagem de alguns planos sem qualquer lógica. Fica também um conselho à produção: como é em português, o programa não tem legendas… o som da inútil música está tão alto que não se percebe o que dizem os intervenientes neste "reality" espectáculo do capitalismo.

RTP: campo minado
A anterior administração da RTP deixou instalada uma camarilha que não teve nem tem o mínimo interesse na criação de programas relevantes para o país, como os ecrãs testemunharam nos últimos anos. Dias antes de sair, a administração promoveu o seu pessoal da camarilha, para os manter agarrados à concepção da RTP para usufruto pessoal.

A camarilha também comprou novos programas e estendeu contratos dos "seus" programas no ar (umas porcarias), para tramar os sucessores e manter as ligações pessoais às empresas contratadas. Durante um ano, os ecrãs ainda serão pasto da perfídia e ignorância de gente que já não manda na RTP. Os contribuintes pagarão 167 milhões de euros por isto.

Duplicidade no ecrã e fora dele  
E o popular apresentador do triunfante programa ‘Top Gear’ foi mesmo despedido da BBC por reincidir em insultos, racismo e violência — fora dos ecrãs. A BBC não tinha outra hipótese, por ter de cumprir as leis do país. Mas teve pena. A declaração do presidente da BBC foi do tipo "desculpa lá, mas tem de ser".
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