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Eduardo Cintra Torres

Vídeo da Queima do Gato

A CMTV mostrou o gato, agora estrela da TV, intacto, passeando pela aldeia.

Eduardo Cintra Torres 28 de Junho de 2015 às 00:30
O Grupo de Danças e Cantares de Vila Flor não sabia no que se metia quando publicou no seu site o vídeo da Queima do Gato na noite de S. João em Mourão. As redes sociais, em fogo, queimaram mais os foliões do que os foliões o gato. Milhares insultaram os aldeãos. Associações pró-animais criticaram a prática "bárbara". Entraram doze queixas-crime contra os festeiros. Pelos media, o que é local tornou-se nacional. A imprensa divulgou as "imagens chocantes."

Algumas notícias puseram aspas em "tradição", como se a Queima dos Gatos o não fosse. Mas é. O fogo, símbolo de purificação e iluminação – de vida – subsiste na fogueira e queima duma árvore, como o pinheiro de Mourão, presente em todo o País, do Minho ao Algarve, de Trás-os-Montes a Olivença. Levava-se o gado, mas não gatos, a atravessar fogueiras. Esta função profiláctica e regeneradora, própria do S. João, festa dos pastores, também visava os humanos, como na queima colectiva de ervas, espalhando o cheirinho bom por toda a aldeia. Desta tradição, sobrou-nos o manjerico.

A festa de S. João, das mais comuns no País, coincide com o solstício de Verão. É, depois do Carnaval, a mais exuberante e com a inversão de valores de que subsiste, no Porto, o martelinho que bate quer nos da "alta" quer nos "de baixo".

E o gato? Antiquíssimo símbolo, do Bem ou do Mal. A Europa, desconfiando dele, associou-o à bruxa desde a Idade Média. A queima é ritual antigo, comum em França até ao século XIX. Em Paris, no século XV, o rei Luís XI assistia à queima do gato, vivo. Em Portugal, parcos relatos referenciam-na no século XIX nas Beiras, sugerindo que o animal era ainda queimado vivo, simbolizando a morte de espíritos maléficos.

Mourão terá, afinal, a tradição já deturpada, "soft", da queima, sem morte. A CMTV mostrou depois o gato, agora estrela da TV, intacto, passeando pela aldeia. A dona, que o empresta há anos para a queima, comparou o caso à excepção legal que Barrancos obteve para matar o touro. Mas Mourão não é Barrancos, que adquiriu um toque "chique" nos media.

O culpado disto tudo? O maldito vídeo. O que é da aldeia deixou de ser só seu: Mourão, aldeia global. Numa tradição concretizando valores antigos e rurais, os urbanos abstractizantes – que, como no poema de Sophia, comem galinhas, mas não as matam – só viram tortura animal.

O povo de Mourão, ouvido pelos media, resistiu. É a sua tradição. E o Grupo de Danças apagou o vídeo, como que dizendo que a tradição se demite do mundo e quer voltar a ser apenas de Mourão.


A surpresa: há homens bons 
A reportagem da TVI sobre João Almiro surpreendeu imensa gente. Eis um homem que prescinde da riqueza, bem-estar e descanso e, aos 89 anos, se dá todo, e aos seus bens, a párias da sociedade – prostitutas, ladrões, assassinos, bêbados, condenados, vítimas, drogados.

Dá-lhes abrigo, amor, companhia, comida, trabalho. Eles, quando querem, levantam voo, reintegrados. A reportagem fazia o retrato integral do bem que o antigo farmacêutico de Campo de Besteiros faz a excluídos. Faltou-lhe o contraditório: ouvir as instituições visadas na reportagem (prisões, segurança social, tribunais). E teve em excesso a música melosa, desonestidade jornalística para adocicar notícias e reportagens.

Jornalistas fazem lobby por agências
O Governo quer fazer como noutros países: as "agências de comunicação" terão de se inscrever como lobistas junto do Estado e declarar os três maiores clientes. A lei deixa de fora o parlamento, pois só este pode legislar sobre si mesmo. Logo veio uma agência pegar por aí – e jornalistas seus amigos também.
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