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Fernanda Palma

O nosso Islão

A ideiade luta entre civilizações antagónicas é uma visão perigosado terrorismo islâmico.

Fernanda Palma 18 de Janeiro de 2015 às 00:30

A ideia de luta entre o bem e o mal ou entre civilizações antagónicas é uma visão limitada e perigosa do terrorismo islâmico. Os terroristas que praticaram os atentados em França eram cidadãos franceses, embora não desfrutassem plenamente da sociedade francesa. Filhos de imigrantes, nascidos em famílias desestruturadas e órfãos com passado delinquente, foram os alvos fáceis de um processo de radicalização.

Tal processo foi desencadeado pela atribuição de um papel importante, através de uma missão religiosa, a jovens formalmente pertencentes à comunidade, mas sem uma efetiva capacidade de nela se realizarem. A radicalização que atinge o nível criminoso corresponde a um fenómeno de contracultura, de que a Criminologia se serve para explicar a neutralização dos valores dominantes nas subculturas delinquentes.

Mas os jovens radicalizados comungam a sociedade espetáculo. O seu Islão foi produzido entre nós e reflete a falta de caminhos numa sociedade que cultiva heróis fúteis todos os dias, produzindo anti-heróis como a outra face da mesma moeda. Se, para uns, valer é ser mais bonito, mais rico, mais forte ou ter mais sucesso sexual, para outros sobra apenas o protagonismo conferido pelo crime em nome da religião.

Nada disto serve para desculpar ou sequer atenuar a responsabilidade dos terroristas. Do meio que os gerou provêm também pessoas como o homem que terá ajudado as vítimas do sequestro no supermercado. Porém, o discurso de demonização do islamismo é um discurso errado, que procura causas externas para aquilo que são problemas de desintegração social e de deficiência cultural nas sociedades avançadas.

O Islão fundamentalista dos aderentes ao Estado Islâmico resulta mais da nossa imunodeficiência social do que da interferência de outras culturas. O facto de um dos terroristas ter denunciado a vivência infernal nas prisões francesas e vir a ser apresentado, depois, como exemplo por Sarkozy não dá argumentos contra a ressocialização. Só prova a sua superficialidade e a tentativa de aproveitamento político. 

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