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Fernando Calado Rodrigues

Descongelar o concílio

Alguns defendem que já não basta “descongelar”, impõe-se convocar um novo concílio.

Fernando Calado Rodrigues 20 de Março de 2015 às 00:30

O Vaticano II permitiu que a liturgia da Igreja pudesse ser celebrada na língua de cada povo e cultura. Essa foi a reforma conciliar que mais rapidamente se tornou efetiva, ainda antes de aquele estar concluído. Foi um sinal claro do desejo de dialogar com o mundo na sua língua.

O Papa Francisco quer que a Igreja, depois de ter "aprendido" a falar o vernáculo, aprofunde agora a experiência e a linguagem da misericórdia. Logo no primeiro Angelus a que presidiu falou dela como a palavra "que muda o mundo". Na mensagem para esta Quaresma expressou o desejo de que os católicos se tornassem "ilhas de misericórdia no meio do mar da indiferença".

No dia em que se completaram dois anos do seu pontificado, proclamou um Ano Santo dedicado a esta temática para comemorar os cinquenta anos do Vaticano II. De acordo com a Santa Sé, ao iniciar-se no dia em que se encerrou o concílio, o próximo dia 8 de dezembro, esse Ano Santo "adquire um significado particular, impelindo a Igreja a continuar a obra começada com o Vaticano II".

Para o diretor do sítio "Religión Digital", José Manuel Vidal, o Papa está a "descongelar" o concílio e "como alguns, na Cúria e nos círculos mais conservadores, continuam a pôr areia na engrenagem das suas reformas, Bergoglio convoca as massas e põe a sua primavera nas mãos das ondas de peregrinos que chegarão a Roma durante o Jubileu".

Alguns, mesmo entre nós, defendem que já não basta "descongelar" o Vaticano II – impõe-se convocar um novo concílio. Porém, para o Papa, parece que basta tornar efetiva a reforma conciliar, uma vez que esta tem de ir muito além da introdução do vernáculo na liturgia.

Seja através de um novo concílio, ou pelo aprofundamento do caminho iniciado há cinquenta anos, parece evidente que a Igreja precisa de continuar a abrir-se ao mundo, como desejava João XXIII. E precisa de sair de si, como tem proposto o atual Papa. Este prefere "uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças", como escreveu na Evangelii Gaudium. Esse é, aliás, um passo imprescindível para que a Igreja possa ir ao encontro das "periferias geográficas e existenciais" que são o seu desígnio.

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