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Correio da Manhã

Colunistas
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12 de Setembro de 2014 às 00:30

Abdel-Karim Allam, o grande mufti do Egito, classificou o Estado Islâmico como uma organização "corrupta e extremista" e sustentou que "é um erro tremendo chamar esse grupo terrorista de ‘estado islâmico’, porque ele viola todos os valores islâmicos, os objetivos mais elevados da lei islâmica e os valores universais compartilhados por toda a humanidade". Defendeu mesmo que os seus membros devem responder em tribunal pelas atrocidades que têm cometido na Síria e no Iraque.

O líder máximo dos muçulmanos egípcios proferiu estas afirmações no início desta semana, num encontro internacional da Comunidade de Santo Egídio que reuniu 300 líderes religiosos em Antuérpia, na Bélgica. Não se conhecem muitas condenações tão veementes na boca dos líderes religiosos muçulmanos. No entanto, como se vê, muitos deles não aprovam o derramamento de sangue pelos motivos que os fundamentalistas advogam. Motivos, esses, já agora, que são os mesmos que os católicos invocaram há séculos e que mancharam a história da Igreja – mas que, felizmente, o pensamento católico já abandonou. O Papa Francisco tem condenado a guerra em nome de Deus. Comentando a expulsão dos cristãos de Mossul e o conflito na Faixa de Gaza, disse no início de agosto que a guerra ofende gravemente a Deus e à humanidade. "Não se faz guerra em nome de Deus!", afirmou. Para ultrapassar este paradoxo, o ex-presidente israelita Shimon Peres defendeu numa entrevista à revista ‘Famiglia Cristiana’ a criação de uma ONU das religiões: "Creio que deveria existir também uma Carta das Religiões Unidas, que serviria para estabelecer, em nome de todas as religiões, que degolar pessoas ou cometer assassinatos em massa, como vemos nestas semanas, não tem nada a ver com a religião", afirmou. "Foi isto que propus ao Papa."

Uma ideia que o Papa terá acolhido com interesse, na demorada audiência que concedeu a Peres. Haja por parte dos outros líderes religiosos a mesma abertura e a ONU das religiões poderá vir a ser uma realidade. Mas não basta criá-la: será preciso dotá-la dos meios necessários para que consiga, não só denunciar e condenar os fundamentalismos, mas também travá-los. Em suma, evitar que haja guerras em nome de uma conceção distorcida da religião.

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