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Fernando Calado Rodrigues

Papa revolucionário?

As palavras de Bergoglio incomodam quem incensa o sistema capitalista.

Fernando Calado Rodrigues 17 de Julho de 2015 às 00:30
O Papa Francisco concluiu a visita à América Latina. Deixou uma palavra de apoio às mudanças que se estão a operar nos países por onde passou, destacando as que promovem uma sociedade mais justa e inclusiva. Foi muito crítico em relação ao sistema socioeconómico que tudo submete à "lógica do lucro a todo o custo, sem pensar na exclusão social nem na destruição da natureza". Sobretudo no discurso aos movimentos populares reunidos na Bolívia.

"Com sua habitual franqueza, o Papa defendeu para todos esses ‘semeadores de mudança’ o acesso aos direitos sagrados dos ‘Três T’ – tecto, trabalho, terra – e uma distribuição diferente das riquezas. Com tons quase revolucionários, ele condenou ‘o esterco do diabo’, ‘a ambição desenfreada do dinheiro que governa o sistema’ e ainda ‘a economia que mata’", podia ler- -se no editorial do jornal francês ‘Le Monde’, intitulado ‘A revolução social do Papa Francisco’.

O ‘Religión Digital’ classifica como uma "refundação da Doutrina Social da Igreja" o discurso do Papa.

"Depois de termos ouvido vários Papas abordarem os perigos da ‘ditadura do proletariado’ (comunismo) e da ‘ditadura do relativismo’ (modernidade), finalmente agora um Papa teve a coragem de denunciar a ‘ditadura subtil’ do atual sistema capitalista neoliberal globalizado, que vai deixando as suas marcas e o seu ‘cheiro’ podre na sociedade e na natureza: o ‘esterco do diabo’ (em latim, ‘stercore diaboli’, um bom nome para esta ‘Encíclica’) onde reina a ambição desenfreada por dinheiro", disse Sérgio Coutinho, professor de História da Igreja no Brasil, a esse sítio religioso.

As palavras corajosas de Bergoglio incomodam muitos que continuam a incensar o sistema capitalista e a professar a fé cega no mercado livre, até em cursos de economia das universidades católicas.

Destacam as suas virtualidades e escamoteiam as suas perversidades, que estão na génese de fenómenos de "pobreza, desigualdade e exclusão". A esses, o vaticanista Andrea Tornelli recorda que o Papa se limita a repropor os ensinamentos da tradição cristã.

E a discussão não deve ser se ele é "comunista ou se fala demasiado dos pobres", mas "porque é que na Igreja estes ensinamentos têm sido esquecidos ao ponto de parecer revolucionária a pregação do Papa argentino?"
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