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Fernando Calado Rodrigues

Um grande bispo

D. Abílio acolheu o bispo do Portoe Salazar retirou os apoios à construção da catedral

Fernando Calado Rodrigues 6 de Março de 2015 às 00:30

D. Abílio Vaz das Neves era bispo de Cochim, na Índia, quando foi escolhido para ser bispo de Bragança, a 8 de dezembro de 1938. Amanhã cumprem-se trinta e cinco anos sobre a sua morte. Em tempos conturbados, entre a II Guerra Mundial e a Guerra Colonial, e numa diocese com parcos recursos, conseguiu deixar uma obra assinalável. Concluiu o edifício onde funciona o seminário, construiu colégios e ainda um patronato para rapazes.

Fundou também uma congregação religiosa feminina. Criou o jornal ‘Mensageiro de Bragança’. Reorganizou a catequese, que era, à época, considerada modelar no País. Deu um grande impulso aos movimentos laicais. E investiu na formação dos futuros padres, reformando o seminário diocesano.

Apesar deste dinamismo, há cinquenta anos, D. Abílio terá sido o primeiro bispo a resignar antes de atingir os 75 anos, a idade prevista desde o Concílio Vaticano II. Até então, os bispos não eram obrigados a resignar e permaneciam à frente da diocese até à morte. Justificou então o seu pedido por não se sentir com forças para implementar a reforma conciliar, uma desculpa que surpreendeu. E logo na altura se suspeitou da intervenção do poder político.

Segundo escreveu recentemente Henrique Ferreira, no ‘Mensageiro de Bragança’, a razão foi essa: "D. Abílio foi vítima da sua solidariedade para com o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, expulso do país entre 1959 e 1969 pelo regime político de Salazar. Na sua passagem por Bragança, foi acolhido no Paço Episcopal. Como castigo, Salazar retirou os apoios à construção da catedral (um projeto desse tempo) sob pressão dos líderes locais, e acabou por influenciar a substituição do Bispo" de Bragança.

D. Abílio não conseguiu, assim, concluir um dos muitos projetos em que se empenhou: construir a catedral. Uma aspiração adiada desde 1770 e que só viria a concretizar-se em 2001.

Um dos segredos do sucesso de D. Abílio era saber colocar a pessoa certa no lugar certo. E, apesar de ter um clero numeroso, quando, mesmo assim, este faltava, ia-o buscar fora. Como foi o caso do cónego Formigão, sacerdote de Lisboa, que foi para Bragança com a missão de refundar o seminário.

Por tudo isto, D. Abílio é hoje uma personalidade inspiradora para os momentos difíceis que atravessamos.

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