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Fernando Medina

Enfrentar Le Pen?

Franceses irão escolher entre a extrema-direita de Marine Le Pen e a direita extrema de François Fillon.

Fernando Medina 30 de Novembro de 2016 às 01:45
A escolha de François Fillon como o candidato da direita francesa é uma má notícia para derrotar a sociedade fechada e intolerante defendida por Marine Le Pen.

Depois da vitória de Trump e do choque da saída do Reino Unido da União Europeia, arriscamo-nos a que o próximo ano seja novamente marcado, nas presidenciais da segunda maior economia da zona euro, pela reedição do discurso do ressentimento contra os imigrantes.

Fillon é um homem da direita tradicional francesa. Primeiro-ministro de Sarkozy, durante vários anos, a sua candidatura apela à exaltação dos valores mais conservadores e identitários de França - no que se aproxima das posições defendidas há vários anos pela extrema-direita de Le Pen. Cavalga o preconceito contra o islão, promete reduzir a imigração e dar poderes quase discricionários às forças de segurança. É caso para dizer que, em maio, os franceses irão escolher entre a extrema-direita de Marine Le Pen e a direita extrema de François Fillon.

Mas Fillon piora a sua situação porque junta a isso uma visão económica ultraliberal. O seu discurso assenta na ideia de que a França está falida e é necessária uma terapia de choque. Defende o despedimento de 500 mil funcionários públicos, o corte nas prestações sociais, aumento do IVA e do horário de trabalho sem compensação adicional.

Um choque austeritário que foi prontamente aproveitado por Le Pen, que nem precisou de 24 horas para vir acusar Fillon de ser o expoente máximo do ultraliberalismo das instituições europeias e do corte de direitos dos trabalhadores. Le Pen tem um discurso protecionista, social até, e abertamente contra a globalização.

A direita francesa escolheu, pois, um mau candidato para derrotar a Frente Nacional. Aproxima-se demasiado de Le Pen nas questões identitárias e até num certo chauvinismo, ao mesmo tempo que se afasta demasiado da esquerda (de cujo apoio depende numa segunda volta) nas matérias económicas.

A esperança de a França, a segunda maior economia da zona euro, vir a ter de novo uma liderança orientada pelos valores fundamentais da tolerância e do cosmopolitismo, com vontade e energia de reconstrução do projeto europeu e apostada no equilíbrio social, resta, pois, na esquerda e nos socialistas.

O final de mandato desastroso de Hollande e as indefinições quanto à candidatura a apresentar pelos socialistas são grandes. Mas muito do nosso futuro vai estar dependente dessa escolha.

Um sinal claro para a cidade
Terminou mais um Orçamento Participativo (OP) de Lisboa. Com várias novidades, e distribuindo 2,5 milhões de euros aos projetos vencedores, esta edição bateu todos os recordes. Foram quase 52 mil votos, distribuídos por 182 projetos resultantes de 562 propostas. O OP, que tem crescido todos os anos, assume-se como um momento ímpar na mobilização da cidade.

Numa Lisboa moderna e complexa, a participação cidadã não se esgota no voto de quatro em quatro anos. Não se vive a cidade sem um sentido de comunidade e participação e esta mobilização é um sinal da sua extraordinária vitalidade. Mas vale a pena olhar com atenção para os vencedores.

Todos os dias ouvimos o debate sobre o automóvel, o estacionamento e as obras, mas os mais votados defendem mais espaços verdes, passeios mais seguros, melhores equipamentos desportivos e mais espaço público. É um sinal do que devem ser as prioridades para a construção de uma cidade mais amiga das pessoas. Esta é a grande lição deste OP, um instrumento cada vez mais importante para a boa gestão da cidade.

Violência (retórica) gera violência
O número de incidentes raciais e de ódio nos Estados Unidos marcou os dias seguintes à eleição de Donald Trump, diz um estudo independente. Em 10 dias registaram-se 867 ataques, principalmente contra negros ou muçulmanos, a maioria dos quais em universidades ou escolas secundárias. Ainda é cedo para conclusões definitivas, mas os primeiros sinais estão longe de ser animadores.
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