Barra Cofina

Correio da Manhã

Colunistas
2
Piloto morre em corrida de motos no Estoril

Francisco J. Gonçalves

Um país e dois mundos

A Turquia é um país cortado ao meio desde os primeiros anos da República.

Francisco J. Gonçalves 20 de Julho de 2016 às 01:45
A Turquia é um país cortado ao meio desde os primeiros anos da República. Mustafa Kemal Atatürk criou das ruínas do Império Otomano um Estado moderno com um regime secular. Ao fazê-lo, numa revolução-relâmpago iniciada em 1920, lançou as sementes de tensão com os conservadores islâmicos, que agora brotam no retrocesso que a contrarrevolução de Recep Tayyip Erdogan representa.

O laicismo turco é artificial e isso tem um preço. Para o criar, Atatürk fez em duas décadas um salto que custou séculos à Europa, e com uma agravante: fê-lo num país muçulmano.

Como escreveu Andrew Mango numa magistral biografia de Atatürk, "o Corão não é só um compêndio de princípios morais, é também a constituição do Estado criado por Maomé". Isto significa a impossibilidade de separar religião de política num país muçulmano, e sem essa separação não há sociedade laica.

Ora, Atatürk fez isso mesmo: moldou a impossibilidade teórica e transformou-a numa realidade prática. E, o que é mais surpreendente, teve sucesso. Mas, como sói dizer-se, não há boa ação que não tenha punição. As tensões na Turquia de hoje podem bem ser esse castigo.
Turquia Mustafa Kemal Atatürk Império Otomano Recep Tayyip Erdogan Europa Andrew Mango
Ver comentários
Newsletter Diária Resumo das principais notícias do dia, de Portugal e do Mundo. (Enviada diariamente, às 9h e às 18h)