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Francisco Moita Flores

Violência juvenil

A violência contra um jovem passa a valer pelas réplicas de imagens no mundo virtual.

Francisco Moita Flores 19 de Fevereiro de 2017 às 00:31
Os casos sucedem-se. Desta vez, foi no Seixal. Uma miúda de treze anos severamente espancada por colegas. Porém, não é tanto a agressão que incomoda. Quase sempre a vítima fica calada e os agressores vivem o festim em grupo. Tudo se revela, na dimensão mais brutal, quando as imagens surgem nas redes sociais e há um denominador comum. São mais aqueles que gravam com telemóveis as cenas de brutalidade do que a quantidade de agressores físicos.

A violência contra determinado jovem passa a valer pelas réplicas de imagens da violência que se conseguem realizar no mundo virtual. O que leva a este fenómeno tão novo e, ao mesmo tempo, tão obsceno? O que determina a emoção de um jovem que filma e reproduz cenas de humilhação? Quase todos, ou mesmo todos, ainda crianças.

Julgo que esta necessidade da violência-espetáculo se alimenta diretamente da desvinculação da agressão física, corpórea, material, substituída pelo fascínio da brutalidade inscrita na maioria dos videojogos, nas imagens que cruzam as redes sociais. Num dos jogos mais populares, o jogador é um bandido que amealha pontos conforme vai matando polícias. Os jogos de guerra atingem níveis de violência que vão muito para além do imaginável.

A brutalidade e a crueldade deixam de ser dor, indignidade, barbárie. São imagens. Simples imagens tão banalizadas que o melhor de qualquer espancamento de uma criança não é o ato em si, já sem outro significado que não seja o prazer da linguagem imagética. Das solidariedades pelo faz de conta em que se torna a realidade virtual. Concordo que se devem discutir as mochilas pesadas que estes jovens carregam.

Porém, este fardo de desinteresse pelas consequências da violência inumana merece uma discussão bem mais profunda entre pais, professores e comunidade em geral. Estamos à beira de uma idade de novos trogloditas. Cibernéticos, mas trogloditas.
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