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Francisco Moita Flores

A língua portuguesa

Um poema não cabe numa folha de Excel e não é possível privatizar Camões.

Francisco Moita Flores 14 de Junho de 2015 às 00:30
Passou mais um Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades e as comemorações entraram na rotina que não aproveita o que de melhor temos, e podemos mostrar, para afirmar a nossa identidade, o contributo para a formação do Mundo. O nosso maior ativo é a língua portuguesa: somos 250 milhões que nascem, vivem e morrem falando, cantando, chorando em português. É a mais falada no hemisfério sul, com comunidades espalhadas pelo planeta, gerando negócios, gerindo empresas, trabalhando, amando. Somos muitos mais do que aqueles que falam alemão ou italiano. Somos um contributo inquestionável para a formação de várias culturas e modificação de civilizações. Somos a imensa Pátria, como lhe chamou Fernando Pessoa, que se multiplica pela erudição, pela literatura, pela política, pela economia, pelo falar dos que partem e ficam e reproduzem palavras, frases, vidas em português. Somos muito mais do que um povo. Somos o chão das palavras de milhões que assim se entendem e, em português, entendem o mundo e a vida.

Quanto vale este ativo? Quanto vale esta dádiva que faz de Portugal e da sua língua a produção de lugares de entendimento, desenvolvimento económico e esperança? Claro que nenhum ministro das Finanças responde. Um poema não cabe numa folha de Excel e não é possível privatizar Camões, Sophia ou Antero de Quental. A nossa maior riqueza pode afirmar a importância de um país, da sua história, da sua cultura, da sua identidade na competitividade e afirmação da diferença. Um governo culto perceberia que cada tostão gasto a divulgar o português é um investimento no futuro. Que cada euro investido na educação e na defesa da língua portuguesa seria a gestão sensata que ganharia mais do que a venda de anéis para salvar dedos. Que cada cêntimo investido na cultura é o caminho para reproduzir milhões. Mas quem nos dirige não tem amor pelo que de maior fizemos.

Não existe, repito, maior ativo no património português entregue ao Mundo. De valor tão prodigioso e incalculável que nem jeito possuímos para o entender como parcela do nosso ser e do nosso ter. É a isto que estamos reduzidos quando o país é governado como uma mercearia, num jogo translúcido entre o deve e o haver. Falta pensar Camões e a magistral Língua que produzimos para motor de arranque. Ou melhor dizendo, falta pensar tudo com a humanidade de ser e falar português.
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