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Francisco Moita Flores

Ana, ‘A Mãe Mártir’

A história acaba assim: Ana sem os filhos. Destruída muitas vezes e por muita gente.

Francisco Moita Flores 3 de Julho de 2016 às 00:30
Ana é mãe de duas crianças. Até há pouco tempo poucos saberiam da sua existência. É uma das muitas vítimas discretas de violência doméstica. O seu ex-companheiro foi condenado por um tribunal por este crime a uma pena de prisão que ficou suspensa. Ana vive com um colar de alerta. Se o predador se aproximar, o mecanismo dispara para que ela possa resguardar-se, fugir, esconder-se. Aconteceu há uns tempos. O colar tocou. Estava num café com um dos filhos. Era sinal de que o homem estava perto. Procurou, em desespero, o outro filho, deixando a primeira criança no café.

Foi o motivo pelo qual a Justiça decidiu retirar-lhe os filhos. Ana é pobre. Vive com as dificuldades com que muitas vítimas de violência doméstica sobrevivem. E é uma infeliz. Só queria sossego. Que o ex- -marido não lhe batesse, que os dias fossem mais luminosos para criar os filhos. Dizem que ele era bom pai. Espancaria a mãe mas era atento às crianças. Foi o argumento à mão para despedaçar esta mulher. Desde então, e já lá vão mais de seis meses, Ana nunca deixou de se bater pelos seus meninos. Nos jornais, nas televisões, nas ruas, e, agora, numa greve de fome à porta do tribunal que lhe esventrou direitos. Ao fim do 17º dia, o corpo não resistiu e caiu inanimada. Foi recolhida ao hospital. O tribunal justifica que não tinha relatórios completos.

Os técnicos da proteção de menores seguem impávidos e crentes na bondade dos seus argumentos para lhe retirar os filhos. E a história acaba assim: Ana sem os filhos. Ana destruída muitas vezes e por muita gente. Ana acolhida num hospital. Ana, a vítima de violência doméstica que ousou dizer não a mais agressão, tornada outra vez vítima. O condenado a saborear a grande vitória: pena de prisão suspensa, filhos à sua guarda e já não precisa de bater para causar sofrimento. A Justiça e os Serviços Sociais encarregam-se disso.
É uma história sem glória. Mas de uma grande falta de vergonha.
Ana Serviços Sociais questões sociais crime lei e justiça maus-tratos
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