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Francisco Moita Flores

Desilusões

Este ano corre para o fim, farto de si próprio, deixando-nos mais fracos, mais desiludidos, bem mais pobres.

Francisco Moita Flores 21 de Dezembro de 2014 às 00:30

Este ano corre para o fim, farto de si próprio, deixando-nos mais fracos, mais desiludidos, bem mais pobres, cada vez mais envelhecidos, crescentemente dependentes de decisores externos, tão de rastos que começa a tornar-se insuportável a humilhação.

Pese a arenga dos prosélitos e fundamentalistas que gritam alvíssaras às virtudes da governação, a cada sinal débil de recuperação, projetando em números de miséria, tal como a anemia do crescimento, a vergonha do desemprego ludibriado por estágios profissionais sem esperança e sem futuro, o melhor desempenho das exportações, a realidade é mais crua, e cruel, do que a propaganda. Só já não vê quem olha para esta governação com o desespero da fé. Até o FMI confessa que se exagerou no remédio. A União Europeia desconfia do orçamento. A OCDE e o Eurostat repetem vezes sem conta a intranquilidade sobre a crise. No meio de tudo isto, o primeiro-ministro decide insultar os portugueses, proclamando, com uma seriedade inacreditável, que nesta crise o mexilhão foi quem menos se lixou. Como se retirar cem ou duzentos euros a quem ganha mil por mês fosse a mesma coisa que subtrair mil a quem ganha vinte mil.

Este ano corre para o fim com vergonha daquilo que nos revelou. Um aparelho de Estado exposto à negociata e à moscambilha, onde se desconfia que sejam poucos os responsáveis públicos que não tenham negócio por fora. Desde avenças a empresas que subvertem a boa-fé das instituições. Um País exposto a sucessivas quedas de instituições bancárias e impunes desvios de biliões de euros. Com governantes, administradores, governadores sacudindo a água do capote.

Este ano corre para o fim com a Escola severamente ferida pelo desleixo e pela incompetência. Com os professores humilhados até ao tutano, com os alunos perdidos. Com a televisão pública de pantanas e sem rumo, sorvendo milhões aos contribuintes cujos destinos merecem ser investigados. Com a TAP a ser metáfora de uma luta pelo País contra o negócio a eito. Com os submarinos já quietos e escondidos em qualquer offshore de ocasião.

Falta já pouco para chegarmos ao fim. Pelo meio, fica o Natal, onde as prendas não abundam e, pior do que isso, não abunda a esperança. Que o transformemos num ato de resistência. Feliz Natal!

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