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Francisco Moita Flores

Fogo: vida e morte

O fogo da alegria, pulsão da vida, apresentou o seu lado hediondo e matou sem piedade.

Francisco Moita Flores 9 de Abril de 2017 às 00:30
A nossa relação com o fogo tem uma carga civilizacional e simbólica, construída na longa permanência do tempo, que bem se pode dizer que a Vida, tal como a entendemos, é indissociável desse elemento primordial, quer para a realização de satisfações materiais, quer para a organização do imaginário e representação dos percursos existenciais.

Tal como os restantes elementos primordiais, a água, o ar, a terra, associa de forma incontornável aquilo que de mais solar e de mais nocturno nos habita: a procura da imortalidade e, por outro lado, a consciência da morte. É um deus invisível, por vezes, impiedoso quando terríveis incêndios destroem floresta e cidades.

É o mesmo deus que se manifesta para a preparação dos alimentos, generoso, assegurando força e energia a cada ser humano. É o deus dos infernos onde penam a alma pecadores castigados pelos pecados terrenos. É o deus da purificação das almas quando os mortos ardem nas piras crematórias.

Por outro lado, é um dos deuses do fascínio, associado à alegria, à festa, à magia do poder que nos remete para o mundo do fantástico. Não há festa nem romaria onde não entrem girândolas de foguetes, muitos deles anunciando lágrimas alegres de todas as cores, girândolas estoirando sobressaltos e excitando os sentidos, momentos insubstituíveis na ligação do homem com o cosmos. O Fogo é uma tira do nosso ADN.

Agora, em Lamego, um grupo de artesãos que preparava o fogo da Festa morreu. Este ano, os céus terão menos serpentinas e menos cores nas noites de celebração das padroeiras e padroeiros que habitam no terreno do Sagrado. O fogo da alegria, pulsão de vida, tragicamente apresentou o seu lado hediondo e matou sem piedade. Oito mágicos da fantasia desapareceram para sempre. Lamego está de luto.

A festa em potência, inscrita naqueles foguetes que estoiraram de uma só vez, tornou-se no acto funesto que matou a Festa e, por causa disso, deixou de luto cada um de nós.
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