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Francisco Moita Flores

Morte assistida

Quem passa a declaração para que alguém possa decidir solicitar a morte?

Francisco Moita Flores 5 de Fevereiro de 2017 às 00:31
A discussão já se previa há algum tempo. As questões ‘fraturantes’ dão um jeito dos diabos para desviar a atenção dos problemas estruturantes da sociedade portuguesa. E o esplendoroso debate sobre a permissão para a ‘morte assistida’ começa mal.

Edgar Morin reconhecia que abordar o problema da Morte é mexer no último dos nossos tabus. E que seria muito difícil chegar à sua essência.

Quando discutimos a Morte, falamos sempre na morte do Outro e não na nossa, por não a conhecermos e não a podermos nunca conhecer. Por outro lado, é reconhecível como verdade absoluta que o nascer e o morrer são acontecimentos únicos, transcendentes, que só o sujeito pode viver sem prestar contas a ninguém. Como diz a poetisa Rosália de Castro, ninguém é ouvido sobre o ato em que nasceu e, no sentido contrário, como sublinha o Génesis, a morte é a única certeza que habita o nosso futuro, em dia e hora que desconhecemos.

Há muito que o nascer foi medicalizado. São residuais os partos sem controlo médico. O século XX medicalizou a morte.

O médico é imperador do nascer e do morrer. Gere a morte ou por ‘teimosia técnico-terapêutica’ (Distanásia), prolongando a vida atá ao absurdo tecnológico ou aceitando o decesso, minimizando o sofrimento sem mobilização de sofisticados meios de suporte de vida (Ortotanásia).

Sendo assim, como podem vir a terreiro ex-bastonários que se afastam e recusam a Eutanásia? Quem garante que alguém está em condições clínicas, pela natureza destruidora da doença, pelo excesso de sofrimento, pela incapacidade médica de reverter a situação? Quem passa a declaração para que alguém possa decidir solicitar a morte? O Parlamento? O bruxo de Cedofeita? Este debate, com os médicos a fazerem de Pôncio Pilatos, torna-se num arremedo de discussão sobre um dos temas mais sérios da vida pessoal e coletiva. É bom recomeçá-lo. Agora a sério.
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