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Francisco Moita Flores

Mulher cadela

Vomitaram-se ódios e raivas. Sobretudo contra Ana Plácido. Pérfida, imoral, desonesta.

Francisco Moita Flores 29 de Outubro de 2017 às 00:31
Foi há cento e cinquenta e seis anos. Camilo Castelo Branco e Ana Plácido foram julgados num Tribunal do Porto, por adultério, depois de mais de um ano em prisão preventiva na Cadeia da Relação.

Ana Plácido, casada, fugiu de casa para viver o amor da sua vida com o célebre escritor.

O caso deu brado. As elites, daquele tempo, dividiram-se.

A polémica sobre os dois amantes foi debatida violentamente nos jornais. Na prisão, Camilo Castelo Branco escreveu o clássico ‘Amor de Perdição’ e as ‘Memórias do Cárcere’.

No julgamento presidido pelo juiz José Queirós, pai de Eça de Queirós, vomitaram-se ódios e raivas. Sobretudo contra Ana Plácido. Pérfida, imoral, desonesta - tudo valeu para rebaixar a sua condição de mulher. Uma cadela que fugira do dono, para os braços do homem que amou o resto da vida.

Há século e meio foi grande o escândalo. Mas já havia um ou outro juiz que não embandeirava nesse beatério moralista.

José Queirós, que era um juiz humanista e culto, mandou o casal em paz, absolvidos. Depois disso, passaram muitos dias e muitos anos com multidões de mulheres e de homens batendo-se pela igualdade de género. Luta rija. Difícil.

Ainda hoje é combate não vencido mas é utopia e regra claramente segura na atual Constituição da República Portuguesa.

Porém, ainda hoje somos habitados por esses velhos donos de cadelas que quiseram transformar em esterco o amor entre Camilo Castelo Branco e Ana Plácido.

José Queirós bem poderia ser um juiz deste tempo novo, defensor dos direitos de cidadania. Não foi e mesmo assim absolveu o amor.

Nestes dias, levantou-se, com um juiz e uma juíza da nossa idade, o ódio antigo a favor das mulheres cadelas, como se a História ainda vivesse em 1861. Seguramente teriam condenado o par de amantes.

Depois de termos andado tanto, há ainda tanto caminho para andar.
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